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Arte e encantamento nas Ilhas de Kagawa

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Uma das quatro províncias de Shikoku, Kagawa é mais conhecida pelo udon, um tipo de macarrão japonês grosso e feito com trigo. Takamatsu, a capital da província, recebe udon-maníacos de todo o país, ansiosos por provar a iguaria in loco. No entanto, é nas ilhas que Kagawa brilha. Localizadas no Mar Interior de Seto, são destinos cobiçados, em especial pelos jovens, em busca de experiências artísticas mais arrojadas e fora da caixa. Mas não é só a arte que atrai visitantes para as ilhas que salpicam o litoral de Kagawa. Apelidado de Mediterrâneo Japonês, o Mar Interior de Seto é rico em belas paisagens, com suas águas verde-esmeralda que banham montanhas cobertas de florestas. Viaje com a gente por três ilhas que causam encantamento na província de Kagawa.

Ponte que conecta as ilhas de Shikoku e Honshu (foto: Pixta)

A ilha do shoyu

Segunda maior ilha do Mar Interior de Seto, Shodoshima é conhecida pela produção de molho de soja shoyu. Além de mais de uma dezena de pequenas fábricas, a ilha também abriga uma das maiores produtoras do país, a Marukin. No antigo espaço de produção, a empresa criou um museu que dá uma boa ideia de como o molho onipresente nas mesas japonesas era produzido no passado e, de certo modo, ainda é nas pequenas fábricas.

ARTE E ENCANTAMENTO NAS ILHAS DE KAGAWA
Fábrica de shoyu em Shodoshima (foto: Pixta)

O shoyu, como vários outros ingredientes das gastronomias orientais, é um produto fermentado. Soja e outros grãos são inoculados com o fungo Aspergillus, conhecido em japonês como koji, iniciando o processo de fermentação. Num processo lento, o mosto pode ficar fermentando por vários meses em impressionantes barris de madeira. Aliás, Shodoshima é a localidade do país com maior concentração de barris do tipo.

O Museu do Molho Shoyu da Marukin traz representações com esculturas do processo de produção tradicional do ingrediente. As legendas em inglês ajudam a quem não consegue ler japonês. Visitantes pagam ¥400 para entrar, mas, além da visita, ganham de presente um frasco do molho produzido no local e um cupom para uso na lojinha. Vale provar o sorvete de shoyu, doce e gostoso.

Mas a grande oportunidade na ilha é visitar as produções artesanais em fábricas como a Yama-roku, uma das poucas do Japão a produzir o shoyu somente em barris de madeira.

A ilha do shoyu
Shoyu sendo preparado de forma artesanal em Shodoshima (foto: Pixta)

Em todo o país, apenas 1% da produção total do molho é feita dessa maneira. Orgulhosa, a empresa convida os visitantes a passear na plataforma construída na altura da boca dos barris e ver de perto o mosto em fermentação nos barris abertos. É possível ver como o shoyu pode ser um alimento “vivo” e sentir o aroma profundo do processo de fermentação.

A fábrica também tem um café em que são servidos o yakimochi, um bolinho de arroz caramelizado no shoyu e sobremesas feitas com o molho. A visita é gratuita, mas não se pode ter comido natto nas 24 horas anteriores à visita, já que o alimento deixa resíduos imperceptíveis que podem contaminar o mosto.

… e das azeitonas

Shodoshima também tem a maior produção nacional de azeitonas. O clima mediterrâneo do Mar Interior de Seto impulsionou uma iniciativa para produzir a frutinha no país e Shodoshima foi o primeiro lugar em que as oliveiras vingaram. Localizado numa encosta à beira-mar, o Parque das Oliveiras é um local em que os visitantes podem passear entre os pés de azeitona e ter uma bela vista das plantações e do mar. Para trazer um clima mais “ocidental”, o parque tem moinhos de vento em estilo europeu. No espaço, dois restaurantes trazem pratos que levam o azeite produzido na região. A Praia das Azeitonas também é um lugar bacana para dar um mergulho ou observar o mar.

azeitonas
O Mediterrâneo é inspiração na ilha (foto: Pixta)

A beleza vista do alto

Um dos pontos mais conhecidos da ilha é o Kankakei, localidade esta considerada uma das três mais belas ravinas do Japão. Partindo de um ponto acessível de ônibus, é possível subir a montanha a pé (50 minutos de caminhada) ou no teleférico (5 minutos de viagem). Do alto, a vista para o mar, com a baía de Uchinomi e as montanhas ao fundo é espetacular. A melhor época para visitar a área é o final do outono, quando as montanhas estão cobertas de árvores de folhagem amarela e vermelha.

Kankakei
O outono tornam magníficas as paisagens de Shodoshima (foto: Pixta)

Ilha abençoada

A cerca de 20 minutos de barca partindo de Shodoshima fica outra ilha que tem atraído cada vez mais atenção no Japão: Teshima. Viagem e turismo, no entanto, nem sempre foram os motivos para que a ilha estivesse nas manchetes dos jornais. Nos anos 1990, a população de Teshima resolveu denunciar a província de Kagawa e uma série de outros agentes por despejo ilegal de material tóxico e negligência com o meio-ambiente.

Foram quase 2 décadas até que todo o material depositado em Teshima fosse retirado, e ainda há questões relacionadas à poluição que ainda não foram resolvidas, embora a contaminação na ilha já não represente mais perigo aos moradores locais. Tudo isso num local que não recebeu o nome de Teshima (algo como “ilha da abundância”, em japonês) por acaso. Localizada numa área com excelente regime de chuvas, água não falta. O solo raso e as rochas vulcânicas porosas servem como filtros naturais que devolvem a dádiva dos céus em sua forma mais pura. Por isso, ao longo da história, o solo montanhoso de Teshima foi usado para a produção de arroz de alta qualidade, atividade que vem sendo retomada aos poucos por antigos e novos residentes.

Teshima
Belezas naturais são o destaque em Teshima (foto: Pixta)

Mas Teshima entrou no mapa turístico japonês quando embarcou nos projetos artísticos iniciados em Naoshima pela Benesse Holdings, uma empresa do setor editorial. Em 2010, a abertura do Museu de Arte de Teshima foi o pontapé inicial. Projetado pelo arquiteto Ryue Nishizawa, o espaço é uma obra em si mesmo, formado por duas construções que lembram naves espaciais de concreto, aterrizadas de forma discreta no solo da ilha. A obra se completa com uma instalação da artista Rei Naito, formada por discretos jatos de água que escorrem pelo amplo espaço da construção, trazendo imagens tão simples quanto hipnóticas.

Mas não é só isso. A ilha é salpicada por obras de diversos artistas japoneses e estrangeiros, instaladas na floresta, nas vilas e nas praias. Um serviço com ônibus esparsos percorre os diversos pontos da ilha. Por isso, quem quiser aproveitar bem deve alugar uma bicicleta — elétrica de preferência, já que a ilha é montanhosa. Circulando na magrela por um dia, é possível visitar todas as obras e curtir as paisagens naturais e culturais que formam a riqueza da ilha.

Teshima
Arquitetura feita de forma a se mesclar com o ambiente (foto: Pixta)

Mas Teshima entrou no mapa turístico japonês quando embarcou nos projetos artísticos iniciados em Naoshima pela Benesse Holdings, uma empresa do setor editorial. Em 2010, a abertura do Museu de Arte de Teshima foi o pontapé inicial. Projetado pelo arquiteto Ryue Nishizawa, o espaço é uma obra em si mesmo, formado por duas construções que lembram naves espaciais de concreto, aterrizadas de forma discreta no solo da ilha. A obra se completa com uma instalação da artista Rei Naito, formada por discretos jatos de água que escorrem pelo amplo espaço da construção, trazendo imagens tão simples quanto hipnóticas.

Mas não é só isso. A ilha é salpicada por obras de diversos artistas japoneses e estrangeiros, instaladas na floresta, nas vilas e nas praias. Um serviço com ônibus esparsos percorre os diversos pontos da ilha. Por isso, quem quiser aproveitar bem deve alugar uma bicicleta — elétrica de preferência, já que a ilha é montanhosa. Circulando na magrela por um dia, é possível visitar todas as obras e curtir as paisagens naturais e culturais que formam a riqueza da ilha.

Teshima
Obra de arte no porto de Teshima (foto: Pixta)

Ilha de arte

Gente do mundo se espantou quando, em agosto do ano passado, correu a notícia de que um tufão teria jogado ao mar uma obra de uma das mais importantes artistas japonesas do século 21. A ventania que atingiu Naoshima surpreendeu até os moradores quando a abóbora amarela e salpicada de pontos pretos foi vista lutando contra o mar revolto. A obra de Yayoi Kusama era uma das muitas instalações a céu aberto de Naoshima, a primeira das ilhas do Mar Interior de Seto, a embarcar no projeto de revitalização econômica através da arte capitaneada pela Benesse Holdings, uma empresa do setor editorial. O sucesso de Naoshima fez o empreendimento se ramificar e se espalhar pelas ilhas vizinhas de Teshima e Shodoshima, na província de Kagawa; e Inujima, na vizinha Okayama.

O Benesse House Museum é o centro principal das atividades artísticas na ilha. No espaço projetado pelo arquiteto Tadao Ando, fica um museu de arte, um restaurante e um hotel. Fotografias, esculturas, instalações e outras formas de arte habitam o espaço, não apenas nas galerias, mas, também, em outros espaços, como as florestas no entorno do museu.

As abóboras de Yayoi Kusama estão no entorno do porto de Naoshima (foto: Pixta)

Também de Tadao Ando é o Museu de Arte Chichu, um espaço subterrâneo todo em concreto, com obras dos artistas Claude Monet, James Turrel e Walter de Maria. O conceito da construção é não interferir na paisagem da ilha. Por isso, o prédio é quase impossível de ser visto por quem está de fora. A reserva antecipada pela internet é obrigatória.

A uma curta caminhada fica o Museu Lee Ufan, dedicado ao artista coreano radicado no Japão desde os anos 1950. Ufan é considerado um dos fundadores do movimento Mono-ha, que se contrapunha à representação na arte ocidental partindo da construção de uma relação entre os objetos e o espaço. A compreensão desse conceito já começa na entrada do museu que fica num vale à beira-mar. Em frente à construção que abriga as galerias, um enorme arco fincado na areia recebe os visitantes.

Arte na vila

Outro polo de exposições fica em Honmura, uma área da ilha de residências antigas no estilo tradicional japonês, muito bem preservadas. No bairro ficam cerca de uma dezena de instalações, quase todas elas em casas reformadas para o uso como galerias. É o The Art House Project. Diferentemente dos museus que possuem cada um o seu ingresso, a visita a seis das casas-galerias de Honmura pode ser feita com um passaporte (¥1050). Quem quiser visitar apenas algumas delas, pode optar pelo ingresso de visita única de ¥420. A residência Kinza, que precisa ser reservada com antecedência pela internet, custa ¥520 e não está inclusa no passaporte.

Também na área de Honmura fica o Ando Museum, um espaço dedicado à obra do arquiteto Tadao Ando, responsável por algumas das principais obras arquitetônicas contemporâneas da ilha.

Arte no antigo casario da ilha (foto: Pixta)

O porto principal

Miyanoura é o porto de entrada principal da ilha. Aqui ficam alguns dos principais hotéis e pousadas fora da área do Benesse House, lojas de locação de bicicletas e motos e outros pontos úteis. Também fica em Miyanoura dois projetos importantes: a Miyanoura Gallery 6, construída numa antiga casa de jogos de azar, e o Naoshima Bath I Love Yu, uma casa de banhos coletiva decorada com obras do artista Shinro Ohtake.

Miyanoura
Barca com as esferas que são marca da artista Yayoi Kusama (foto: Pixta)

Ah, no Porto de Miyanoura fica um outro exemplar da série das abóboras de Yayoi Kusama. A escultura vermelha, que forma uma bela composição com o mar no pôr do sol, está a postos para receber e se despedir de quem visita a ilha.

Miyanoura
Yayoi Kusama é uma das artistas de destaque com obras em Naoshima (foto: Pixta)

Empatia: linha divisória entre pessoas saudáveis e psicopatas

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Não desejamos causar sofrimento às pessoas, essa é a linha divisória entre pessoas saudáveis e não saudáveis, como os psicopatas. Mesmo assim, magoamos, somos magoados, prejudicamos e somos prejudicados. O que explica esse movimento involuntário de causar dor?

Na grande parte das vezes, isso ocorre por confusão da nossa própria mente. Quando ferimos alguém e quando nos sentimos feridos estamos vinculados a expectativas e medos que desencadeiam o sofrimento. Isso pode ser visto a partir das relações amorosas, por exemplo. Há dois universos individuais, mas desejamos que ele seja um e costumamos confundir nossos desejos e expectativas amorosas com as dos nossos parceiros, quando não ocorre essa convergência nós sofremos e costumamos entender que o outro é culpado pelo nosso sofrimento, quando na verdade ele é nosso.

Através da meditação Loving Kindness cultivamos essa abertura para entender o sofrimento como parte da condição de todos nós, e a partir dessa consciência, poder lidar com o nosso sofrimento de modo a não acrescentar mais dor a ele. Além disso, ampliamos a visão para enxergar o sofrimento do outro e agir com a intenção de ajudá-lo a superar, ou seja, nos tornamos mais compassivos.

Nós temos esse impulso natural de querer ajudar alguém que está em sofrimento, mas se estamos preparados para ajudar, por que não o fazemos? A causa principal para não agirmos de acordo com a nossa natureza compassiva é o nosso autocentrismo. O egoísmo é muito presente e estimulado na sociedade contemporânea, assim, focados em nossos próprios objetivos perdemos visão coletiva e a colaboração é afetada negativamente.

Por essa razão, a neurociência social, um novo campo neurocientífico que estuda os circuitos neurais da interatividade humana, demonstra que os circuitos neurais padrão nos conduz a ajudar, porque quando notamos a outra pessoa, automaticamente sentimos o que ela sente. Esses são os recém-descobertos neurônios espelho.

Contudo, se estamos concentrados em nós mesmos, nos nossos problemas, nas nossas preocupações, não enxergamos o outro de modo algum, e isso é antinatural e limita exponencialmente nossa sensação de bem-estar.

A indicação atual no campo da meditação laica ou secular é que possamos cultivar a calma individual, condição indispensável para dissipar as confusões mentais, o que se dá através do Mindfulness. Mas também precisamos cultivar os aspectos amorosos e gentis através da meditação Loving Kindness, aquela que amplia a nossa visão coletiva permitindo que a saúde floresça, já que é a empatia que nos difere dos maquiavélicos e psicopatas.

 

Viviane Giroto

Especialista em Psicopedagogia, Psicomotricidade e Sciences et Techniques du Corps – ISRP – Paris, France

Ph.D. em Psicologia pela UFRJ

https://vivianegiroto.com.br/

As fases do luto

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A vida é inconstante, cheia de incertezas, imprevistos e contratempo. Por mais que tentamos ou achamos que temos controle sobre as coisas, a grande verdade é que não temos controle sobre quase nada. A morte está aí para nos mostrar isso, que tudo é finito e que todos nós estamos aqui de passagem. Mas por mais que tenhamos a certeza de que um dia a morte chegará, vivemos ignorando este fato como forma de nos proteger de futuros sofrimentos e, consequentemente, quase nunca estamos prontos para lidar com ela. No entanto, quando algum conhecido, amado, amigo ou familiar morre, nos deparamos com a dor de perder alguém querido e o luto é a consequência desse sofrimento.

O que muitas pessoas não sabem é que o luto é uma vivência importante para o processo de elaboração e aceitação das perdas. É uma forma da pessoa conseguir lidar com a dor de perder algo ou alguém amado e querido. O luto não só acontece mediante o falecimento de alguém, ele também pode acontecer quando se rompe um relacionamento, quando se perde um vínculo afetivo ou o trabalho, por exemplo.

A pessoa em luto costuma entrar em um estado de recolhimento, ficando mais retraída, introspectiva, triste, tendo crises de choro, se recusando a sair de casa, não aceitando a situação ou perdendo o interesse em atividades que antes amava. Ela também pode cometer excessos como consumir muita bebida alcoólica, dormir demais, comer demais ou quase não se alimentar ou então não expressar nenhum sentimento se mantendo “fria” mediante a situação. Dessa forma, ela pode sentir um conjunto de emoções e expressá-las de maneiras diversas, pois cada pessoa reage e lida com o luto de maneira singular, dependendo da sua personalidade, experiências de vida e capacidade de lidar com as emoções. Cada pessoa vai ter a sua maneira e tempo para lidar com o luto.

No entanto, para nos ajudar a compreender o processo do luto, a psiquiatra suíça-americana, Elisabeth Kübler-Ross, descreveu o que ela chamou de cinco fases no luto, sendo elas: negação, raiva, barganha ou negociação, depressão e aceitação.

Na negação, a pessoa nega que o outro morreu, ela não acredita nem quer acreditar na possibilidade de ter perdido um ente querido, então ela rejeita a realidade.

Na fase da raiva, surgem sentimentos negativos como angústia, desespero, medo, culpa, frustração e raiva. A pessoa costuma ficar mais agressiva e manifestar a raiva por meio de atitudes autodestrutivas, como beber exageradamente ou brigar com as pessoas.

Na barganha ou negociação, a pessoa enlutada negocia consigo mesma ou com Deus algo que possa fazer para a pessoa amada voltar, mesmo tendo consciência da impossibilidade disso, ela alimenta esse pensamento para consolar a si mesma. Pensamentos como “e se eu tivesse feito isso” ou de “se eu fizer X coisa, posso reverter a situação” fazem parte desta fase.

A quarta fase, a depressão, a pessoa é acometida por um grande sofrimento, se apegando à dor causada pela partida do ente querido. Na última fase do luto, a aceitação, a pessoa compreende a sua nova realidade e consegue conviver pacificamente com a perda. Neste momento, o enlutado consegue se lembrar da pessoa que partiu com carinho e ser grato por ela ter participado de sua vida.

Essas fases do luto não são lineares e podem acontecer em ordens diferentes, mas é importante a pessoa passar por elas e viver o seu luto para não ter de viver em luto pelo resto vida. Então respeite o seu processo, respeite o processo do outro, as nossas dores levam tempo para cicatrizar.

Juliana Fernanda de Barros é psicóloga (CRP 06/11635) do Projeto Sakura desde 2016.

Problemas judiciais no japão

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Você sabia que discussões, gestos agressivos e brigas podem resultar em problemas judiciais no Japão e até mesmo em detenção?

O Código Penal Japonês entende os insultos, ameaças e agressões físicas como crimes, com possível condenação ao pagamento de multas ou a penas de privação de liberdade.

Os insultos, por exemplo, são considerados crimes que ofendem a honra e equivalem ao que chamamos de injúria no Brasil. Geralmente, são expressos por palavras ou gestos ofensivos a alguém, com exposição de opiniões que desqualificam e expressam insolência ou desprezo, como os xingamentos. Até mesmo gestos podem ser considerados insultos. Assim, levantar e mostrar o dedo médio para alguém ou para várias pessoas pode ter consequências sérias, a depender do contexto em que isso aconteceu, se o gesto foi acompanhado de palavras e postura ameaçadora, se houve testemunhas e provas. Quando uma pessoa ofendida busca a Polícia, pode-se iniciar um inquérito policial para averiguar os fatos ocorridos e, se necessário, um processo criminal terá início. Pode ser que tudo se resolva com um acordo entre as pessoas envolvidas, com o pagamento de uma quantia de reparação à pessoa ofendida e assinatura de um termo se comprometendo a não repetir o ato delituoso. Caso contrário, o problema poderá arrastar-se por anos, causando transtorno e incômodo aos envolvidos.

De maneira ainda mais grave, qualquer ameaça feita à vida, à liberdade, à integridade física, à honra ou à propriedade de alguém pode ser enquadrada como crime de ameaça e será submetido à apuração dos acontecimentos por policiais. A depender das investigações, o caso será encaminhado para a Promotoria, responsável pela acusação. Eles então vão decidir se uma multa de até 300 mil ienes poderá ser o bastante para resolver o inconveniente causado à vítima ou se é necessário seguir adiante, apresentando uma denúncia para a Corte Criminal. Nesse caso, quem ameaçou estará sujeito a receber uma pena de até 2 anos de prisão. E isso se a ameaça não tiver sido consumada, caso contrário, a situação fica ainda mais séria!

Nesses tempos de interações mediadas pela internet e pelas redes sociais, vale a pena atentar-se para mensagens eletrônicas que podem ser interpretadas como ameaças online! Apesar de muitos se sentirem protegidos e escondidos pelas telas e teclados, as autoridades policiais têm meios muito eficazes para desvendar ameaças cibernéticas e estão cada vez mais empenhadas em punir tais comportamentos.

Por fim, é importante notar que qualquer tipo de agressão física, mesmo “leve”, pode levar ao indiciamento e denúncia para a corte criminal. A pena pode chegar a 2 anos de prisão, multa de 300 mil ienes e uma advertência. De acordo com o sr. Etsuo Ishikawa, advogado parceiro do Consulado-Geral do Brasil em Tóquio, aqui no Japão a agressão é tomada em sentido amplo, não somente quando há contato físico. Assim, o ato de cuspir em alguém, por exemplo, também poderá ser considerado uma agressão. O advogado ressalta ainda o perigo de revidar agressões. Mesmo que uma outra pessoa tome a iniciativa de insultar você primeiro, ou venha a provocá-lo, ameaçá-lo, agredi-lo, ou caso você queira apenas defender um amigo que se envolveu numa confusão, ações que no Brasil são tidas como “legítima defesa” têm grandes chances de complicar a situação para todos os envolvidos. Diante de uma agressão ou de uma ofensa, o caminho seguro é chamar uma autoridade policial o mais rapidamente possível e formalizar o ocorrido, sem revidar, deixando que as autoridades policiais tomem as devidas providências.

Se for necessário, dirija-se ao posto policial (KOBAN) mais próximo ou use o telefone de consulta geral da Delegacia de Polícia para consultar sobre crimes e prevenção a crimes. Algumas organizações sem fins lucrativos ou ONGs de apoio aos estrangeiros também oferecem serviços de consulta gratuita. Os Consulados brasileiros no Japão também estão habilitados a aconselhar sobre a forma de agir e oferecem atendimentos de orientação jurídica gratuitos. Quanto aos problemas jurídicos que exigem representação judicial, as consultas também podem ser feitas no Ho Terasu (Centro Japonês de Apoio Jurídico, uma agência governamental independente) ou nas Ordens de Advogados regionais. Para maiores informações, consulte também a Associação de Intercâmbio Internacional da Prefeitura mais próxima.

 

João de Mendonça Lima Neto

Cônsul-Geral do Brasil em Tóquio.

Assumiu o Consulado-Geral do Brasil em Tóquio em fevereiro de 2018.

Graduou-se em filosofia e economia pela Universidade de Sofia nos anos 70 e serviu como diplomata na Embaixada em Tóquio nos anos 90.

Como Embaixador, serviu em Hanoi e Abu Dhabi e como diplomata em Paris, Assunção, Londres e Xangai.

Seu hobby é fotografia.

Publicou vários livros e textos.

Um lámen Michelin fora da rota

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Alguns bairros a gente só visita mesmo em ocasiões muito especiais. É o caso de Minami-nagasaki, uma tranquila área residencial na linha suburbana Seibu Ikebukuro, em Tóquio. No pequeno shotengai — rua comercial — adjacente à estação, no segundo andar de um prédio que só se destaca do entorno por ser uma construção mais contemporânea, fica o Kane Kitchen Noodles, citado no Guia Michelin 2021 na categoria Bib Gourmand.

O prato assinatura do local é um lámen de shoyu, feito com um blend de diferentes molhos de soja, uma característica já comum na produção de tigelas neste estilo. A base da sopa é feita com frango e mariscos, ambos muito bem representados no sabor, num bom balanço com o molho de soja e com um pouco de vegetais para trazer frescor. Sopa e massa — gostosa e bem cozida — fazem uma boa combinação.

Das coberturas, todas bem feitas, o destaque fica para o char siu de frango, muito macio e suculento. O ovo cozido também é bem feito, com sabor leve, mas como todo o resto do prato, sem surpresas.

Sendo assim, o que mais me chamou a atenção no espaço e em sua comida foi o fato de um restaurante com um trabalho que podemos chamar de bom — e apenas isso — estar numa lista de tanto destaque, numa metrópole com lámens de tamanha excelência e qualidade. O atendimento é bacana, simpático. Já o espaço, muito limpo, parece um pouco decadente, embora seja possível ver que houve um restaurante elegante num passado não muito distante.

Quando visito um restaurante que me deixa essa impressão, procuro outras resenhas para entender em que pé ando em compasso com pessoas que gostam tanto de lámen quanto eu e, de fato, vi que muitos comensais, japoneses e estrangeiros, gostam muito do lámen do Kane Kitchen. Mas, da minha parte, apesar da refeição não ter sido nada desagradável, surpreendente mesmo foi ter ido até Minami-nagasaki atrás deste lámen. Talvez demore um tempo até que eu visite o bairro novamente.

SERVIÇO

Kane Kitchen Noodles
Tokyo-to Toshima-ku Minaminagasaki 5−26−15 Machiterasu Minaminagasaki2F-A [mapa]

UT Suri-Emu – Empresa de Recrutamento no Japão

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Terça        09:00 AM – 05:00 PM

Quarta      09:00 AM – 05:00 PM

Quinta      09:00 AM – 05:00 PM

Sexta        09:00 AM – 05:00 PM

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Hamamatsu recebe mais uma edição do Bossa Brasil

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O palco do Bossa Brasil recebe, no próximo dia 10, os cantores Roberto Casanova e Mika da Silva. Organizado pelo Consulado-geral do Brasil em Hamamatsu, o evento mensal tem como objetivo promover a integração entre brasileiros e japoneses através da música e da gastronomia.

Lançado no dia 12 de novembro, o projeto recebeu em sua primeira edição o Duo Sammity, formado pela cantora japonesa Michiko Watanabe e pelo violonista e cantor brasileiro Samuel Fujimura. Segundo a organização, o evento inaugural atraiu personalidades e empresários de Hamamatsu, conhecida como a “Cidade da Música” pelos japoneses. Com uma população de quase 800 mil habitantes, Hamamatsu é o maior município da província de Shizuoka e abriga a maior população verde-e-amarela dentre as cidades do arquipélago. Quase 10 mil habitantes de Hamamatsu são brasileiros.

Hamamatsu recebe mais uma edição do Bossa Brasil

Roberto Casanova é conhecido da comunidade brasileira por ter sido, em 2009, campeão do Nodojiman, uma competição de cantores amadores de todo o país. Mesmo sem falar japonês à época, o brasileiro encantou os jurados e o público da emissora pública NHK com seu carisma e talento musical. Depois do concurso, Casanova lançou discos e continua se apresentando com um repertório de músicas japonesas e brasileira. Já a japonesa Mika da Silva é apaixonada pela música brasileira e se tornou conhecida no Japão como intérprete de MPB. A artista venceu o Press Awards como melhor cantora japonesa de música brasileira no Japão por três vezes. Mika e Roberto são casados.

Além da parte musical, o evento conta com o Cachaça Corner, no qual os visitantes podem degustar cachaça e caipirinha gratuitamente.

O evento vai ser realizado no dia 10 de dezembro, às 19 horas, na Cervejaria Mein Schloss, no centro de Hamamatsu. A entrada é franca, mas o consumo no restaurante da casa é obrigatório.

 

SERVIÇO

Bossa Brasil em Hamamatsu
evento musical
data: 10 de dezembro de 2021
horário: Início às 19 horas
local: Cervejaria Mein Schloss (Hamamatsu Beer)
endereço: Hamamatsu-shi, Naka-ku, Chuo 3-8-1
reservas pelo telefone 053-452-1146
traje: casual

Lámen ao natural

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Minami-oi é um bairro que fica nas cercanias da estação de Omori, uma região relativamente fora do radar dos turistas estrangeiros. O único “atrativo” da região costumava ser o Aquário de Shinagawa, tipo de espaço que eu parei de visitar porque me dá dó ver os bichos ali confinados. Mas ali fica uma das casas de kakigori que eu mais gosto em Tóquio, a Necogoori, e foi assim que eu tive contato pela primeira vez com o Homemade Ramen Muginae.

Meu companheiro de jornada lamenística, o chef Carlos Fukuy, que me apontou o espaço, ainda antes de iniciarmos a lista Michelin. Estava fechado. Depois dessa visita, eu não conto mais nos dedos as vezes em que comi no Necogoori e, mesmo com a intenção de fazer a dobradinha lámen + kakigori, bati com a porta na cara do Muginae. Já acabei até parando na casa irmã, que fica a uns 10 minutos de distância a pé, o gostoso Aomugi.

A pequena fila na porta me dava alguma esperança de entrar mas a lista de reserva no cavalete que fica na entrada me dizia um sonoro “não”. Então, vai a primeira dica: se quiser visitar o Muginae, chega cedo. O restaurante libera a lista na porta às 9 da manhã. Quando cheguei por volta das 11:30, o horário mais cedo disponível era 14:05. O espaço é pequeno? Sim. Mas não é só isso. O Muginae é incrivelmente popular e há uma razão para isso.

Para ser justo, bom deixar claro que a primeira delas é que o lámen é realmente excepcional. A casa oferece dois tipos de lámen somente: shoyu e niboshi/iriko, com sopa feita com base em filhotes de sardinha secos. Fui neste último, que é um ingrediente bem mais difícil de controlar, já que seu sabor é forte e marcante. Pedi a versão tokusei (especial), com todos as coberturas possíveis. Por incrível que pareça, o sabor da sopa é rico em umami, com notas de azeite de oliva que não é adicionado diretamente o caldo mas, sim, na feitura do iriko, o qual é banhado em um salmoura feita com folhas de oliveira.

Kuroge Wagyu Meshi, arroz com cobertura de carne de boi marmorizada japonesa (foto: Roberto Maxwell)

A massa, por sua, vez é delicada na textura e saborosa ao paladar, um verdadeiro agradado produzido diariamente na casa, justificando o “home made” do nome. Já as coberturas são um espanto. A começar pelo cubinho de carne marmorizada wagyu, que aparece com gordura suficiente para fazer presença no prato, mas no tamanho certo para não ser enjoativo. A carne bovina faz um belo par rosadinho com o char siu de porco, cozido lentamente por imersão em água, um ponto que costuma assustar o pessoal por aqui. (Me consultei com um especialista que me explicou que a carne é preparada num termocirculador e por isso conserva a cor rosada, embora esteja completamente cozida.) Suculenta e muito saborosa, a carne de frango completa a tríade de proteínas animais da tigela, presente em fortes e no recheio do wonton. Na parte vegetal, a alga seca traz ainda mais umami, enquanto o broto de bambu menma vem com uma doçura delicada e toques de cebola e cebolinha comprida trazem crocância e frescor. A surpresa vem por conta de pequenos pedaços de amêndoa.

Dito isso, vem a cereja do bolo. O Muginae é um restaurante que tem uma preocupação extra: oferecer uma comida completamente livre de conservantes e aditivos químicos. Por isso, utiliza ingredientes muito bem selecionados, de produtores que compartilham a mesma forma de pensar. Sendo assim, a casa estampa com orgulho o fato de trabalhar somente com ingredientes naturais. Tudo num ambiente bem inclusivo, acessível aos estrangeiros, com menu em inglês. Comer em um dos nove lugares do Muginae, sob os olhos do chef Akihiro Fukaya, foi uma das melhores experiências desta aventura que tem sido provar os 20 lámens citados no Guia Michelin 2021. Hoje categorizado como Bib Gourmand, se seguir como está, o Muginae não deve demorar muito a ganhar a sua estrela.

SERVIÇO

Homemade Ramen Muginae
Tokyo-to Shinagawa-ku Minamioi 6-11-10 [mapa]

Budismo e psicologia

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O Budismo surgiu na Índia e logo se expandiu pelo Oriente, especialmente na China, Japão e Tibet. Seus fundamentos foram formulados pelo primeiro Buda, Sidarta Gautama, que nasceu no ano 623 a.C. O objetivo dos ensinamentos deixados por Buda é superar o sofrimento, dukka, também traduzido como insatisfatoriedade. Essa insatisfação ocorre, sobretudo, porque nos apegamos àquilo que nos faz bem e sofremos terrivelmente quando perdemos o que nos mantinha em condições satisfatórias.

Por essa razão, costuma-se dizer que o desejo seria a causa do sofrimento, mas na verdade é o apego, ou seja, atribuímos valor a uma situação que nos faz feliz e, consequentemente, passamos a temer a dissolução desse contexto favorável. Essa alternância entre alegria e tristeza permeia toda a nossa existência.

Para superar o sofrimento, segundo o budismo, precisamos ter a experiência de si, que se dá de forma mais profunda e sensível através da meditação. A prática meditativa nos leva a conquistar maior liberdade em relação aos nossos próprios condicionamentos, abrindo caminho para a transformação dessa experiência de um lugar menos vulnerável. Esse lugar nos permite reconhecer a interdependência e a impermanência de todos os acontecimentos e de todos os seres, de modo a nos reposicionar com mais criatividade e (auto) compassividade em relação a eles.

O autoconhecimento como forma de autotransformação aproxima o budismo da psicologia e, por essa razão, são muitos os estudos* que tratam dessas similaridades.

Por exemplo, ambos os campos de saberes estão ligados às práticas, entendidas como meios de intervir na realidade, de modo a encontrar formas mais efetivas para lidar com os problemas.

A premissa de que é mais importante a maneira com que lidamos com os fatos, do que os fatos em si, corresponde aos objetivos desses dois campos de saberes distintos.

Nesse sentido, busca-se em ambas as abordagens práticas, formas mais espontâneas e menos rígidas de experenciar a vida, ampliando a visão de si e do horizonte existencial.

Mesmo considerando as diferenças, podemos afirmar que tanto a meditação quanto a psicologia buscam a redução do sofrimento através do autoconhecimento, visando a transformação e a conquista de uma existência mais livre.

*Sobre a aproximação entre a psicologia ocidental e o budismo ver Mark Epstein.

Lámen fulgurante com estrela Michelin

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Quando o Tsuta recebeu a primeira estrela Michelin dedicada a um restaurante de lámen, as reações foram diversas. Por um lado, os puristas disseram que o guia estava decadente e, portanto, buscando meios de chamar a atenção para um negócio que via sua relevância indo por água abaixo, em especial por conta dos mecanismos de avaliação de restaurantes como o Yelp. Mas teve gente que viu um movimento de deselitização que já vinha colocando em cheque a pompa e a circustância que envolvem a alta gastronomia. No ano seguinte, os críticos e comensais mais dedicados estavam ansiosos para saber se a casa perderia sua estrela e ocorreu algo ainda mais inesperado: não só o Tsuta manteve sua estrela como uma nova entrada foi registrada, com o Sosakumen Kobo Nakiryu.

Isso foi em 2017, faz uns anos que o Tsuta nem é citado no Guia mas o Nakiryu segue firme e forte, não só com a estrela mas, também, no coração dos fãs. Minha visita foi no início da tarde de um domingo chuvoso. A fila estava “dobrando o quarteirão” o que, no caso, quer dizer que se quebrava na esquina e seguia do outro da rua. Como sempre despreparado para intempéries, fui socorrido pelo trabalhador do restaurante que vinha constantemente anotar quantas pessoas estavam na fila. Ele me trouxe um elegante guarda-chuva preto. Omotenashi que diz, né?

Depois de quase uma hora na fila, pude me sentar no balcão do restaurante. A equipe trabalha em silêncio, embalada por uma estranhíssima trilha de versões bossa nova do Guns’n’Roses. (Bossa nova, Guns’n’Roses… Juro que fiquei imaginando o Johnny Massaro vivendo o Exterminador do Futuro numa versão meio Ipanema, meio Chapéu Mangueira. )

Trilhas à parte, o lámen que chega à mesa é à prova de distrações. O prato-assinatura da casa é o Tantanmen, um lámen picante. Não sou exatamente um fã de pimentas, então fui de Shio, sal, na versão “tokusei”, ou seja, com todas as coberturas possíveis. Além disso, pedi o char siu gohan, arroz com o porco marinado da casa. Na primeira tragada da sopa já é possível entender porque o Nakiryu é um restaurante de tanto sucesso. O umami é predominante neste lámen com base em mariscos e outros frutos do mar. Leve mas com personalidade. A massa, finíssima, também é um primor, do ponto ao paladar. Daí entram as coberturas que são o ponto forte do prato. O porco marinado com um ponto de cozimento sensacional, resistência à mordida sem ser duro e um sabor que nos leva à China. Do mesmo modo, o wonton de camarão com o recheio muito bem preparado. Ali dentro daquela simples massa recheada estava um camarão que poderia muito bem ser parte de um prato de qualquer restaurante de alta gastronomia.

Lámen fulgurante com estrela Michelin
Além do lámen, a casa serve outros pratos como este com arroz e carne (foto: Roberto Maxwell)

Essa riqueza de sabores e detalhes explica bem o fato do Nakiryu ter recebido — e mantido — a estrela Michelin e, por mais que o guia hoje esteja sujeito a muito mais críticas do que antes, não se pode negar sua importância dentro da indústria e como referência para pessoas que não moram no Japão e não têm acesso às excelentes e mega especializadas publicações de gastronomia, com críticos que não só atuam no país como conhecem a fundo a cena de restaurantes de Tóquio, uma tarefa hercúlea. Para vocês terem uma ideia, o Nakiryu até aparece nas listas da TRY, por exemplo, revista que elenca os melhores lámens de cada ano por categoria. Mas nem de longe a casa é unanimidade. No fundo, as listas dizem algo sobre a cena, mas dizem muito mais sobre si mesmas. Ainda assim, são uma excelente curadoria que não deve ser desprezada. No mais, para mim foi uma experiência imensa ter provado os 20 lámens destacados no guia. Hoje posso dizer que conheço um pouco melhor o panorama toquiota deste prato que não tem glamour, mas é uma genuína representação da gastronomia popular contemporânea da maior megalópole do planeta.

SERVIÇO

Sosakumen Kobo Nakiryu

Tokyo-to Toshima-ku Minamiotsuka 2−34−4 SKYMinamiotsuka [mapa]