No começo existia o reino… (Não exatamente no começo de tudo, vai? Mas no começo que interessa para essa história. Voltemos). Ele era formado por pequenas ilhas e era chamado de Ryukyu. Ryukyu ficava entre duas outras terras muito maiores, governadas por gente muito poderosa. Por isso, o reino aprendeu que a melhor arma para negociar com os mais fortes é a diplomacia. Ainda assim, os governantes dos países maiores tinham receios. Então, eles fizeram de tudo para evitar que os léquias — o povo de Ryukyu, no idioma de Camões — tivessem armas. Mas isso não foi problema. O povo das ilhas inventou um modo de se defender com as mãos vazias.
Os léquias viviam do comércio, tinham bons barcos vindos da China e navegavam por todo leste e sudeste da Ásia, trazendo e levando produtos. Durante séculos, foram, através de um sistema que os submeteu ao Domínio de Satsuma (atual província de Kagoshima), uma das poucas portas do Japão para o exterior. Próspero, o reino que andava no fio da espada, entre duas potências, somente perdeu sua autonomia no final do xogunato Tokugawa, quando o Imperador Meiji decidiu anexar definitivamente Ryukyu ao Japão, criando a atual província de Okinawa.
Mesmo parte do território japonês, Okinawa ainda é hoje cheia de especificidades que fazem de suas ilhas locais únicos para se conhecer. De hábitos alimentares até a língua própria, repleta de dialetos locais, para muitos o arquipélago é praticamente outro país. Além disso, muitas de suas ilhas são verdadeiros paraísos tropicais, uma imagem que pouca gente associa ao Japão. Isso sem contar com o caratê, arte marcial que tem origem no Reino de Ryukyu, e dá um tempero a mais a quem quer explorar essa parte do país cheia de peculiaridades.
Nesta edição, o JP GUIDE seleciona para você as principais ilhas e deixa as melhores dicas para fazer a sua viagem por Okinawa rica em cultura, aventura, belezas naturais e, claro, boa comida. Embarque nessa.
CARATÊ NA ILHA DE OKINAWA
Uma das artes marciais mais populares do planeta, transformada tardiamente em esporte olímpico, o caratê é originário do antigo Reino de Ryukyu. Desde o século 14 há registros de artes marciais sendo praticadas nas ilhas léquias. Desde antes da unificação que deu origem a Ryukyu, líderes locais mantinham acordos com a dinastia que comandava a China, o que ajudou a florescer o comércio das ilhas, além de ter criado pontes para importantes trocas culturais.
Neste movimento de famílias da região de Fujian, no sudeste chinês, passaram a imigrar para Ryukyu levando seus conhecimentos nos campos da ciência, da medicina e das artes marciais. Assim, as lutas praticadas em Ryukyu foram ganhando elementos vindos do continente e essa influência chinesa foi moldando uma nova forma de arte marcial.
Ainda no século 15, dois atos políticos acabaram gerando uma série de consequências para as lutas no Reino de Ryukyu: o banimento do uso de armas por pessoas comuns e a proibição da prática de artes marciais. Com isso, a transmissão das técnicas de combate corporal passa a ser feita de forma clandestina. Na falta de armas, as pessoas praticantes precisam aprender a se defender com as próprias mãos ou, no máximo, com a ajuda de objetos encontrados em casa. Por conta disso, as técnicas marciais de Okinawa ganharam, muito tempo depois e já no século 19, o nome de caratê, escrito com os caracteres 空手 que, literalmente, significam “mãos vazias”.
No entanto, o nome dessa luta é ainda mais antigo. Inicialmente, era chamada de “tii” (te, em japonês, com o significado de “mão”). Depois da absorção das influências vindas da China, as técnicas de combate passaram a ser conhecidas como “tode” ou “tuutii”. “To/tuu” são diferentes pronúncias do caractere 唐, usado para designar a dinastia Tang que imperou na China por alguns século e, com o tempo, o próprio império chinês. Esse caractere pode ser lido em japonês como “kara”, dando origem ao nome caratê, igual ao atual mas com significado bem diferente: “luta chinesa”.
Com a anexação do Reino de Ryukyu ao Império Japonês e o recrudescimento das relações políticas entre o país e a China, a palavra “karate” passou a ser escrita como 空手 e ganhou o significado que conhecemos atualmente: “mãos vazias”.
Viajando pelo caratê de Okinawa
Praticantes de caratê do mundo inteiro costumam visitar Okinawa para conhecer melhor a história desta arte marcial e, de quebra, ter experiências únicas. No fim de semana mais próximo a 25 de outubro, o Dia Internacional do Caratê, praticantes de todo o planeta se juntam na Kokusai Dori — a principal avenida da capital, Naha — para um grande evento, com demonstrações de kata, as posições de luta. Quem participa diz que é uma emoção indescritível o momento em que todos se juntam para praticar a série de exercícios demonstrativos, uma coreografia fortemente ritmada. Gente de todas as etnias e idades podem ser vistas no evento, o que mostra a força internacional do caratê.
Outro ponto que atrai os praticantes de artes marciais é o Karate Kaikan, um espaço conhecido pelo dojô coberto de madeira quase imaculado e por um portal vermelho, a cor dos espaços mais luxuosos de Ryukyu, como o Palácio de Shuri, a residência oficial do rei. Quem visita o Karate Kaikan pode agendar horários de treino ou assistir às atividades que estiverem rolando. Mas o espaço mais valioso da instituição é, sem dúvidas, o Salão de Referência com uma exposição que conta a história da arte marcial em Okinawa e no mundo, exibindo também uma série de peças históricas e contemporâneas relacionadas à prática do caratê.
Quem pretende fazer uma imersão mais profunda pode treinar em dojôs, com praticantes locais. Apesar de muitos desses espaços não terem mestres fluentes em línguas estrangeiras, eles aceitam participantes por um número limitado de aulas. O intermédio entre visitantes e dojôs pode ser feito pelo Okinawa Karate Information Center. O site é multilíngue, tendo inclusive versão em português, mas o atendimento só rola em japonês ou inglês. As aulas podem ser agendadas online.
Se, depois do treino, você quiser confraternizar com caratecas locais e internacionais, o seu lugar é o Dojo Bar. Descontraído, o espaço foi fundado por Jamie Pankiewicz, um apaixonado por caratê, que se mudou para Okinawa para treinar e acabou se tornando uma figura folclórica na cena local. Pankiewicz também organiza eventos de caratê como acampamentos de férias e os 100 Kata Challenges (Desafios dos 100 Katas) que, neste ano de 2020, ganha versão online. Nesses eventos, que também rolam próximo ao Dia Internacional do Caratê, participantes escolhem um kata de sua preferência e fazem 100 repetições. As inscrições para quem deseja receber certificado de participação na edição online de 2020 estão abertas no site do evento.
Karate Kaikan
Okinawa-ken Tomigusuku-shi Tomigusuku 854-1
Horário de funcionamento: 9 às 18 horas (Salão de Referência), 9 às 21 horas (dojô); fechado às quartas e alguns feriados
Preços: (Salão de Referência): ¥310 (adultos), ¥210 (estudantes de ensino médio e superior), ¥100 (estudantes do ensino fundamental)
Okinawa Karate Information Center
localizado dentro do Karate Kaikan
http://okic.okinawa/
Dojo Bar
Okinawa-ken Naha-shi Asato 101
100 Kata Challenges: www.facebook.com/events/765840817593907
O MAR AZUL DE ZAMAMI
Localizada a apenas 50 minutos de barca da ilha de Okinawa, Zamami é a mais conhecida ilha do arquipélago das Keramas, famosa pelo azul da cor de suas águas. A expressão Kerama Blue (algo como “azul Kerama”) é conhecida em todo o país. Furuzamami é a praia mais popular da ilha. São cerca de 800 metros de praia num formato de enseada. Uma bela paisagem, sem dúvida, e mais linda ainda quando se mergulha e se observa os peixes e outros animais que escolheram o local para viver. Com sorte, você pode até encontrar uma tartaruga marinha.
VERDE E AZUL EM TOKASHIKI
Também parte do arquipélago das Keramas, Tokashiki tem um mar, claro, azul. Mas aqui, além das praias, você terá a oportunidade de fazer um rolê com direito ao outro tipo de banho: o de verde. Chamado de shinrin-yoku em japonês, trata-se de um relaxante passeio na mata. Os córregos dão um refresco no calor e flores de diversas espécies podem ser vistas ao longo do ano. A ilha tem duas rotas de caminhada pelas montanhas e uma série de mirantes onde é possível ver o belo mar e tirar fotos incríveis.
NA SELVA EM IRIOMOTE
Segunda maior ilha da província em extensão, Iriomote tem quase 90% de seu território, aproximadamente 300 km², coberto por florestas. Quem visita tem a oportunidade de fazer passeios praticamente únicos em território japonês como, por exemplo, andar de caiaque em ecossistemas que lembram os manguezais. A floresta também tem um habitante raro: o gato-de-iriomote é um felino de pequeno porte que foi descoberto nos anos 1960 e só existe na ilha. No entanto, encontrá-lo é uma questão de sorte já que esse gatinho selvagem é um animal noturno e está em risco de extinção. Estima-se que existem menos de 100 remanescentes.
ESTRELAS EM ISHIGAKI
Porta de entrada para o arquipélago de Yaeyama, Ishigaki tem, de acordo com os astrônomos, o céu mais estrelado do Japão. É possível ver 84 de 88 constelações possíveis quando a noite cai na ilha. As Plêiades, um grupo de estrelas da constelação de Touro, são amadas pelo povo local e aparecem em diversas lendas contadas na ilha. Mas seguindo a ideia de que “gente nasceu para brilhar”, Ishigaki também é conhecida por suas artes tradicionais. Tanto que é conhecida como “a pátria dos poetas, a ilhas das canções e a terra da dança”. Estilo musical tradicional das ilhas Yaeyama, a tubarama é uma espécie de canção do (des)encontro, sempre entoada como um dueto romântico. Estrelas, em Ishigaki, brilham no céu e nos palcos.
UVAS DO MAR EM KUME
A cerca de 3 horas de barco partindo de Naha, Kume é uma pequena ilha com praias bem aconchegantes e uma iguaria pouco conhecida por gente de fora do Japão: o umi-budô, as “uvas-do-mar”.
Também chamadas de caviar verde, essas algas são raras nas grandes cidades japonesas e, por isso, costumam ser caras. Em Kume, não só é possível ter acesso a uvas-do-mar super frescas como, também, comê-las como uma pessoa local. Além disso, a ilha tem praias lindas. Uma delas, Hatenohama, é somente uma faixa de areia no meio do oceano, acessível por barco. Ibu é outra praia famosa da ilha, sempre na lista das 100 melhores do Japão.
AS MAIS BELAS PRAIAS EM MIYAKO
Das mais de 160 ilhas que compõem a província de Okinawa, Miyako é considerada a que tem praias mais belas. Não é uma escolha fácil já que a província é conhecida como o Havaí do Japão, o que já dá uma ideia do que a gente pode ver por lá. A verdade é que o mar de Miyako é mais azul e mantém esta mesma cor ao longo de todo o ano.
Existe uma razão para isso. Ao contrário de outras ilhas que formam a província, Miyako é praticamente plana. Isso quer dizer que não tem rios que correm erodindo seus leitos e jogando sedimentos no mar. Sendo assim, mesmo depois de uma chuva forte, o mar da ilha continua azul e cristalino.
Mas não é só isso. A areia das praias de Miyako também são brilhantes. Isso se dá pela quantidade de fragmentos de conchas que compõem a mistura. Com o sol batendo a pino, já que não há montanhas para fazer sombra, o brilho da areia chega a ofuscar de longe a visão de quem insiste em não parar de olhar para ela.
Três são as principais praias da ilha. Maehama ou Yonaha-maehama é uma praia arenosa de 7 km de extensão, localizada na parte sudoeste da ilha. Sempre no topo da lista das mais belas praias do Japão, Maehama é muito apreciada para o banho e para a prática de esportes marinhos.
Já a Praia de Yoshino é conhecida como point de quem curte snorkeling. Basta pisar na água que peixinhos coloridos de diversas espécies vão se aproximando e, quando você percebe, eles estão ao seu redor te deixando com aquela dúvida na cabeça: quem veio observar quem? Equipamentos para a prática do snorkel podem ser alugados na própria praia, caso você tenha esquecido de trazer os seus.
Sunayama é outra praia popular. Aqui, além das águas azul-turquesa, a praia é composta por pequenas dunas e formações rochosas cobertas de vegetação. Bela e singela.
Os únicos cuidados necessários nas praias de Miyako são as ondas e as águas vivas. Fique de olho na força do mar e, se parecer perigoso, não entre. Não são exatamente praias perigosas, mas discernimento é recomendado. Além disso, evite as águas vivas. Os locais não são exatamente repletos desses cnidários que podem ser venenosos, mas existem casos de pessoas ferroadas que acabam tendo que fazer uma visita ao hospital.
Além da observação dos peixes, Miyako é excelente para quem quer mergulhar em corais. No mar que circula a ilha vive a mais extensa colônia dessas equinodermas no Japão. Na pequena Ikemajima, uma das ilhas que formam o município de Miyako, ficam barcos com o fundo feito de piso de vidro, o que permite a observação dos corais de uma forma bem bacana. Os barqueiros sabem onde são os melhores pontos de observação, incluindo de outros animais como a tartaruga-gigante. Além disso, eles levam você até o maior coral do mundo, uma criatura de mais de 1400 anos que se espalha em um berço esplêndido formado pelo assoalho marinho. Vida mansa assim ninguém quer, né?
YONAGUNI: O FIM
Ponto mais ocidental do Japão, Yonaguni fica apenas 111 km de distância de Taiwan. Só para constar, essa é mais ou menos a distância entre Tóquio e Atami. A capital japonesa mais perto de Yonaguni é Naha que fica a mais de 500 quilômetros. Mergulhar é uma das atividades mais populares dentre as pessoas que visitam a ilha. Aqui, a vista é rara. É possível nadar com cardumes de tubarões-martelo, alguns deles com mais de 100 indivíduos. Além disso, a região tem uma topografia submarina misteriosa, para dizer o mínimo. Megalitos submersos a cerca de 100 metros de comprimento, 60 de largura e 25 de altura, se parecem com degraus e pilares feitos de pedra, com cortes perfeitos demais para serem obra da natureza. Estudos sobre as estruturas são inconclusivos, o que nos deixa ainda mais espaço para sonhar. Seriam as ruínas de uma cidade perdida?
