Sair de casa com mais perguntas que respostas pode ser o que você precisa na sua jornada pela Terra do Sol Nascente
Quando começamos a viajar, somos ensinados a sair de casa com respostas para tudo. Precisamos saber exatamente onde, quando e como vamos. Não ter isso tudo muito bem definido ainda é, para muita gente, sinônimo de uma viagem que não vai dar certo. Este tipo de comportamento é alimentado pelas redes sociais que nos abastecem de certezas. Se você for neste local, vai conseguir a foto perfeita. E se comer naquele restaurante, vai ter a melhor refeição da sua vida. Muita gente segue a receita a risca para não ter frustrações. O resultado são viagens sempre iguais: ricas em fotos para o Instagram, pobre em experiências pessoais.
Porém, como guia e consultor de turismo aqui no Japão, venho percebendo um novo movimento, ainda incipiente, de gente cansada deste modo de viajar. Também noto que, apesar disso, essas pessoas não conseguem pensar em outras formas de pensar a sua viagem. Elas ainda chegam aqui, depois de 30 horas de viagem, querendo ‘ver’. Pedem para ver um templo. Depois, pedem para ver o Cruzamento de Shibuya. Daí, pedem para ver o projeções em um museu. O resultado é uma viagem de imagens soltas, sem liga, sem sentido.
O tempo me ensinou que uma viagem só se completa quando ganha sentido. E não dá para encontrar sentido quando você sai de casa cheio de respostas. Fazer perguntas é o único meio de fazer uma viagem, em especial a um país tão distante quanto o Japão, ganhar significado e poder de transformação. Hoje, orientar os viajantes neste sentido é o que me move como jornalista e profissional do turismo.
Para começar, você já se perguntou por que está vindo ao Japão?
A resposta a essa indagação é um bom começo se você quer viajar com propósito. Não é que seja fácil, mas você vai perceber que caminhos que nortearão as suas escolhas vão começar a se abrir. Há muitos anos tive um cliente com uma clareza incrível sobre o motivo de vir para cá: comer. A gastronomia era o que o trazia ao país e pronto. Partindo disso, foi muito fácil para mim montar um roteiro para ele. Nossos caminhos passavam por mercados, feiras, museus gastronômicos, lojas de utensílios, espaços de produção e, claro, restaurantes. Sem templos ou santuários, sem Cruzamento de Shibuya. Sem concessões ao que se espera como roteiro de primeira viagem. No final, era claro para mim que ele estava extremamente satisfeito desta forma. Ele não ‘viu’, ele viveu o Japão.
Nem todo mundo tem tanta clareza, claro. E a maioria das pessoas tem interesses diversos. A diferença está no quão profundo é o seu autoconhecimento como viajante. Eu, particularmente, sou apaixonado por comunicação. Adoro registrar o que vivo (foto, vídeo, texto) e transformar as minhas viagens em histórias. A maioria delas fica guardada para mim. Outras, eu divido com o público nas minhas redes sociais ou no meu site.
Quando viajo, escolho lugares que me permitam ecoar a minha experiência. Facilmente abro mão do ponto turístico para me encontrar com pequenos produtores, por exemplo. Já visitei todo o tipo de fábrica, estúdio, ateliê que você possa imaginar. Também sou louco por cinema e teatro. Em Berlim, já me peguei na plateia de um espetáculo em alemão. Detalhe: não falo uma palavra do idioma. Assisti “O Segredo de Brokeback Mountain” em Bangkok. Assim, descobri que, pelo menos na época, os cinemas exibiam um noticiário sobre o rei e que as pessoas se levantavam em reverência quando ele aparecia em cena.
Para ter essas experiências, certamente tive que abrir mão de visitar algum ponto turístico famoso. Não sei qual poderia ter sido e, de verdade, não me arrependo. Não fez diferença para mim.
Por isso, quando você planejar a sua viagem ao Japão, te convido a sair de casa com mais perguntas que respostas. Desafie o senso comum de que existe uma lista segura de coisas imperdíveis a serem feitas. Assuma o risco de fazer uma viagem memorável, mesmo que seja só para você.
