NAS ENTRANHAS DE SAGA
Das peças arqueológicas ao artesanato, uma província com forte relação com a terra
Texto: Roberto Maxwell
Uma das menos conhecidas províncias do Japão, Saga tem história. Muita história. Boa parte dela ficou por séculos escondida debaixo da terra. Trazidas à luz pelos especialistas, as descobertas contam que Saga pode ter sido um dos primeiros lugares do Japão a ter um governo propriamente dito. Tudo isso vem contado nos sítios arqueológicos do Período Yayoi encontrados na província, alguns deles considerados os mais importantes do país.
Da terra vem, também, a cerâmica que virou especialidade da província. De Saga vem o aritayaki, uma das principais escolas de produção de porcelana de um país em que vasos e potes ganharam status de arte em todo o planeta. Visitar as olarias da província é como um passeio na evolução das técnicas desse tipo de produção artesanal. A proximidade do continente também fez de Saga uma província de suma importância no comércio além-mar e mesmo nos planos expansionistas do Japão, desde o período feudal. Era do seu litoral que Toyotomi Hideyoshi se lançava na loucura de tentar conquistar a Coreia, algo que custou sua saúde física e mental. Conheça mais sobre Saga nesta edição do GUIA JP.
Os primeiros mandatários do Japão
Uma reviravolta tecnológica: é assim que os pesquisadores definem o Período Yayoi. Foi uma era de tantas mudanças que mesmo os historiadores têm dificuldades de delimitá-lo. A periodização mais aceita define o início no ano 1000 a.C. e 300 d.C. como o fim. Foi uma época de muitas migrações, com diversos grupos chegados do continente trazendo novas tecnologias, como a agricultura e novas técnicas de olaria. Assim, esses recém-chegados começaram a ocupar áreas e disputar terras com os nativos, da cultura Jomon.
A maioria desses migrantes vinham da Península da Coreia e, pela proximidade, a ilha de Kyushu foi o seu primeiro porto. Um dos mais importantes sítios arqueológicos do Período Yayoi fica justamente em Saga. O local era ocupado por uma vila cercada por um fosso e, muito provavelmente, era a sede do que se acredita que possa ter sido o governo da história japonesa.
Na área do sítio arqueológico foi criado o Parque Histórico de Yoshinogari, com reproduções de cabanas, depósitos, torres e santuários, além de bonecos e artefatos que mostram como era a vida na área há mais de um milênio. A maior parte das construções feitas de madeira é acessível aos visitantes.
O espaço principal é chamado de Minami Naikaku, um assentamento na área interna do fosso. Cercado por muros e fossos, acredita-se que esta era a área de onde os primeiros reis do país administravam seus domínios. Além dos assentamentos, existem áreas de exposição com artefatos e ferramentas mostrando as técnicas agrícolas da época, as urnas funerárias e outros itens. Os museus são muito bem pensados e têm explicações em japonês e inglês.
Com a mão na terra
Quando se fala em olaria no Japão, um dos primeiros nomes que vêm em mente é o arimayaki. Arima é uma localidade na província de Saga que, junto com a vizinha Imari, entraram para a história como o primeiro local do Japão a produzir porcelana a partir da caulinita, um mineral que eleva a produção dos vasos e potes a um nível superior de qualidade.
As técnicas de produção vieram da Coreia há cerca de 400 anos, quando o daimyo (senhor feudal) Toyotomi Hideyoshi tentou invadir a península. Na época, ele trouxe artesãos para o arquipélago e foi um deles que descobriu a caulinita na região. Com isso, Arita e Imari entraram rapidamente no mapa. A porcelana produzida nas localidades ganhou destaque em todo o planeta e, mesmo com o fechamento do Japão durante o Período Edo, o produto era exportado até para a Europa, através de Dejima, na vizinha Nagasaki.
Em Arita, o visitante pode conhecer a história da porcelana em Kyushu num museu especialmente dedicado ao tema. O espaço de exposição é excepcional mas, infelizmente, não há muita informação em inglês.

Outro ponto imperdível na cidade é o Santuário Tozan. Construído no meado do século 17, o espaço é dedicado a um importante ceramista coreano que viveu na região, e também homenageia os imigrantes que trouxeram as técnicas de cerâmica para Arita. O santuário xintoísta é um dos únicos do Japão em que o portal de entrada (torii) e os guardiões komainu são feitos de cerâmica.
Antigas residências dos artesãos podem ser visitadas na área chamada de Tonbai, formada por becos estreitos e residências muradas. Os muros, feitos com cacos e cascalho que sobravam das olarias, serviam como proteção contra a concorrência. Ou seja, era uma forma de impedir que o trabalho nas oficinas fosse visto e proteger as técnicas desenvolvidas por cada artesão.
Escondida nas montanhas
Outro ponto histórico para a produção de porcelana é a vila de Okawachiyama, construída numa região remota nas montanhas. Como a produção de vasos e outros itens tinha um grande valor de mercado, o clã de Nabeshima, que dominava a região, controlava diretamente as olarias.
Para proteger a produção e evitar vazamentos de dados e técnicas para a concorrência, eles construíram uma série de oficinas na área isolada. Sendo assim, Okawachiyama passou a ser conhecida como a “vila das olarias secretas” e seu produto, chamado de nabeshimayaki.
Atualmente, há cerca de 30 oficinas no local e algumas delas preservaram as antigas chaminés, e os visitantes podem conhecer melhor a história da vila através do Centro de Artesanato Tradicional de Imari-Arita. Atravessando a pequena ponte, toda ornada com azulejos, uma curta caminhada leva até o Parque Nabeshima Hanyo. Dali, é possível ter uma bela vista da vila incrustada na floresta.
Na ponta do Japão
Voltando para a costa, bem na ponta de um istmo que se projeta para o continente, fica a pequena cidade de Karatsu, com seu belo castelo posicionado numa colina banhada pelas águas da baía. Por conta da proximidade com o continente, Karatsu era um dos portos onde as embarcações a caminho da China e da Coreia faziam parada antes de entrar em alto-mar.
Construído em 1608 com material proveniente de uma outra fortificação que existiu na região, o Castelo de Karatsu se tornou a sede militar da cidade que cresceu em torno do porto.
A edificação atual é uma reconstrução feita nos anos 1960 e abriga um museu que conta a história da cidade, incluindo aí o antigo Castelo de Nagoya, cujo material foi utilizado na sua versão original. Vale ressaltar que o nome não tem relação com a também reconstruída fortificação localizada na capital de Aichi, Nagoya.
Aliás, as ruínas deste outro castelo, que ficava na península de Higashi Matsuura, também merecem uma visita. Bem próximo fica o Museu do Castelo de Nagoya, com uma exposição que mostra a grandiosidade da fortificação construída por Toyotomi Hideyoshi em sua campanha ensandecida para conquistar a península da Coreia. Diz-se, aliás, que uma das loucuras mais saudáveis que o daimyo cometeu na sua curta estadia no castelo foi decorar partes de espetáculos de teatro nô e encená-los, obrigando outros senhores feudais a contracenar com ele no palco. Fino.
Nova potência no saquê?
A ilha de Kyushu é conhecida pela produção de shochu, uma bebida destilada com teor alcoólico de mais de 30%. Várias destilarias da região são conhecidas nacionalmente. Mais recentemente, algumas fábricas de nihonshu, conhecido no ocidente como saquê, começaram a aparecer no mercado com produtos competitivos e de alto nível.
Uma delas é a Seto, fundada no final do século 18 no distrito de Shiotacho, parte do município de Ureshino. A área, na montante do Rio Shiota, é conhecida pela água pura e por ares frescos, excelentes para a produção de saquê. Um dos carros-chefes da produção é o Junmai Azumacho, um puro arroz com sabores que pendem para o adocicado. Produzido com o reihou, um tipo de arroz da província, combina bem com carnes e queijos e mostra que a pequena Saga não está na produção de saquê para brincadeira.
Parque Histórico de Yoshinogari
Saga-ken Kazaki-gun Yoshinogarimachi Tade 1843
https://goo.gl/maps/Nw7detK3HnRScNAQ8
Museu da Cerâmica de Kyushu
Saga-ken Nishimatsuura-gun Arita-cho Toshaku 3100-1
https://goo.gl/maps/iatRKkvStYUcAgPY7
Santuário Tozan
Saga-ken Nishimatsuura-gun Arita-cho Odaru 2-5-1
https://goo.gl/maps/8MehKp9HzPU5JEzw6
Centro de Artesanato Tradicional de Imari-Arita
Saga-ken Imari-shi Okawachichohei 221-2
https://goo.gl/maps/7QNMrC5Z4a6iJwyg9
Parque Nabeshima Hanyo
Saga-ken Imari-shi Okawachicho 26
https://goo.gl/maps/Gn6ACdE9PwZgTnDc9
Castelo de Karatsu
Saga-ken Karatsu-shi Higashijonai 8
https://goo.gl/maps/wmKGrdsEj5B5cV4z5
Museu do Castelo de Nagoya
Saga-ken Karatsu-shi Chinzeimachi Nagoya 1931-3
https://goo.gl/maps/CarnxLXewGP8VdJY8
Fábrica de Saquê Seto – Azumacho
http://www.azumacho.co.jp/
https://goo.gl/maps/d9XfBFydGWyK38gP8










