Yotsuya Kaidan: A lenda de Oiwa e o terror que transcende o tempo

Leitura obrigatória

Yotsuya Kaidan (四谷怪談) é um dos contos de fantasmas mais conhecidos do Japão. Escrita por Tsuruya Nanboku IV em 1825 como peça de kabuki, a história narra a traição, assassinato e vingança de Oiwa contra seu marido, Tamiya Iemon. Ao longo dos anos, a narrativa se tornou referência no folclore japonês e já foi adaptada para o cinema mais de 30 vezes, influenciando o gênero de terror no país.

A origem da história

A peça estreou em julho de 1825, no Teatro Nakamuraza, em Edo (atual Tóquio), apresentada em sessão dupla com o popular Kanadehon Chushingura. A encenação intercalava cenas das duas peças em dois dias de apresentações completas, uma abordagem inovadora para a época.

O público se identificava com os personagens e as situações apresentadas, pois a peça trazia os fantasmas do Japão para o cotidiano das pessoas comuns, abordando medo, injustiça e vingança de maneira direta.

Enredo principal

Ato 1 – Conflito e assassinato

O ronin Tamiya Iemon discute com seu sogro, Yotsuya Samon, sobre sua esposa, Oiwa, e mata o sogro em um acesso de raiva. Ao mesmo tempo, outro personagem, Naosuke, com obsessão pela irmã de Oiwa, Osode, mata por engano seu antigo mestre. Iemon e Naosuke passam a conspirar, envolvendo Oiwa e Osode em suas manipulações.

Ato 2 – Traição e morte de Oiwa

Oume, neta de Itô Kihei, apaixonada por Iemon, trama junto à família Itô para desfigurar Oiwa, usando um creme facial envenenado. Ao se ver desfigurada no espelho, Oiwa entra em desespero e, acidentalmente, perfura a própria garganta com uma espada, morrendo e amaldiçoando Iemon. Ele logo se envolve com Oume, enquanto o espírito de Oiwa passa a assombrá-lo.

Ato 3 – Vingança e caos

Iemon é manipulado por Naosuke e pelo fantasma de Oiwa, que o levam a matar membros da família Itô. Disfarces e tramas de chantagem se acumulam até que o ronin tenta se refugiar nas montanhas, mas a presença de Oiwa o leva à loucura.

Ato 4 e 5 – Conclusão da vingança

Iemon, perseguido pelo fantasma, acaba sendo morto por Yomoshichi, encerrando o ciclo de assassinatos e vingança que marcou sua vida.

O fantasma de Oiwa

Oiwa é classificada como onryō, um espírito vingativo no folclore japonês. Caracteriza-se por:

  • Quimono branco, típico de funerais.
  • Cabelo longo e desgrenhado.
  • Rosto desfigurado, incluindo o olho esquerdo caído, consequência do veneno aplicado por Iemon.

No kabuki, uma cena marcante mostra Oiwa penteando os cabelos, que caem de forma exagerada para criar efeito dramático, subvertendo cenas de beleza da época.

Oiva estaria enterrada no templo Myogyo-ji, em Sugamo, Tóquio, tendo falecido em 22 de fevereiro de 1636. Antes de encenar adaptações da peça, atores fazem peregrinação ao túmulo de Oiwa, pedindo permissão para representar sua história.

Representações artísticas

A história inspirou várias xilogravuras ukiyo-e, incluindo trabalhos de:

  • Hokusai: representações de Oiwa em imagens de lanternas e espíritos vingativos.
  • Utagawa Kuniyoshi: Oiwa aparece com cobras e fumaça, destacando seu caráter sobrenatural.

Essas imagens consolidaram a iconografia de Oiwa, especialmente seu rosto desfigurado e cabelo desgrenhado.

Adaptações cinematográficas

Entre as principais adaptações estão:

  • Yotsuya Kaidan (1949, 1956)
  • O Fantasma de Yotsuya (1959), dirigido por Nobuo Nakagawa
  • YOTSUYA KWAIDAN (1959), dirigido por Kenji Misumi
  • Illusion of Blood (1965)
  • Crest of Betrayal (1994), dirigido por Kinji Fukasaku

Esses filmes reinterpretam a peça, mantendo o núcleo da trama de traição e vingança, enquanto exploram recursos cinematográficos para criar tensão e terror.

Legado

Oiwa se tornou um símbolo da vingança justa e do sofrimento não resolvido, influenciando peças de kabuki, literatura e cinema de terror japoneses. Sua história aborda temas universais como justiça, moralidade e consequências das ações humanas, conectando tradições do século XIX a produções contemporâneas.

A narrativa de Yotsuya Kaidan permanece relevante por mostrar como a cultura japonesa trata o sobrenatural, o comportamento humano e a repercussão das ações dentro da sociedade.

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