Próxima de Kyoto e Osaka, a província de Wakayama quase não se beneficia dessa localização e, infelizmente, ainda está fora do roteiro da maioria dos estrangeiros que visitam o Japão. Montanhosa, a província sofre, de certo modo, com o difícil acesso às áreas mais interessantes. Ainda assim, nem todos os lugares são isolados. A região do Monte Koya, por exemplo, está numa distância de Osaka que permite até um bate-e-volta. Já as rotas de peregrinação da Península de Kii exigem um pouco mais de esforço, apesar de estarem dentro da área de uso do JR Pass. Neste artigo, vamos falar do sagrado na província de Wakayama e deixar algumas dicas para você conhecer alguns dos mais belos e mais importantes templos e santuários da Terra do Sol Nascente.
Koya, a montanha sagrada
Para muitas pessoas em viagem, a porta de entrada para Wakayama é o Monte Koya, também conhecido pelo seu nome em japonês Koya-san. Porta de entrada talvez seja uma expressão que passe uma ideia errônea sobre a localização do Monte Koya, isolado nas montanhas da província. De qualquer modo, Koya-san é a localidade mais conhecida de Wakayama e é seu principal chamariz turístico.
Considerado um dos mais importantes locais sagrados do Japão, o Monte Koya é o centro da denominação Shingon do budismo. Esta escola chegou no país no século 9, com o retorno do monge Kukai ao Japão. Kukai é uma figura central nas muitas mudanças que ocorreram no cenário do budismo japonês em sua época, que tem início com a saída da corte de Nara.

Nara era um forte centro budista e, por isso, seus monges e escolas tinham muito poder político, o que incomodava o imperador e sua corte. A mudança da corte e, por consequência, do poder político foi só uma das medidas adotadas para esvaziar a força dos monges de Nara. Kanmu, o imperador naquele ano de 803, ordenou uma expedição de estudiosos e diplomatas à China. Era comum este tipo de missão assim que um mandante subia ao trono, mas a realocação da capital, inicialmente para Nagaoka e, depois, para Heian (atual Kyoto) acabou fazendo com que a expedição saísse muitos anos depois de sua ascensão.
Kukai não era um monge conhecido à época mas conseguiu, por meio de influências, fazer parte da expedição. Fluente em chinês, ele teve papel importante quando uma tempestade acabou tirando a frota da rota prevista e dois dos barcos acabaram parando em um local totalmente diferente. Foi uma carta escrita por ele que permitiu o desembarque da tripulação e, com isso, Kukai deu início aos seus estudos no budismo na China. Somente no ano seguinte que o monge encontrou com o respeitado mestre Huiguo. Em seu relato do encontro, Kukai deixa claro que o mestre, já idoso, estava à sua espera e ele foi iniciado imediatamente nos estudos da doutrina. Ele foi o último discípulo de Huiguo. Com a morte do mestre chinês, seus ensinamentos foram desaparecendo na China. Graças a Kukai e à escola Shingon que os conhecimentos de Huiguo se mantiveram vivos.
Retornado ao Japão, Kukai foi ganhando respeito na corte e, depois de anos de serviços distintos, o agora mestre recebeu a autorização para fundar um retiro espiritual no Monte Koya, que foi crescendo ao longo dos anos até se tornar o que conhecemos hoje. Koya abriga mais de uma centena de templos budistas e, com sua atmosfera tranquila no meio da natureza, tem recebido turistas do mundo todo, inclusive estrangeiros em busca de conforto espiritual e tranquilidade.
Dormindo num templo
Uma das experiências mais recomendadas do Monte Koya é o shukubo, o pernoite dentro de um templo budista. Antiga prática para atender peregrinos tornada atração turística, o shukubo é uma pequena janela dentro da rotina de práticas da religião. Após o check-in, os visitantes participam do shakyo, uma espécie de meditação através da cópia de sutras, textos sagrados do budismo. Com uma simplicidade rústica, os quartos de piso de tatami também são uma parte interessante da experiência, assim como dormir no futon, um fino mas aconchegante colchonete. Nas épocas mais frias, aquecedores são usados no ambiente que é bastante básico.
A estadia no templo costuma incluir duas refeições frugais, no estilo adotado pelos monges. É a chance de provar o shojin ryori, a gastronomia monástica, completamente vegana. Iguarias como o gelatinoso kon-nyaku e a nata de soja yuba são servidas junto com legumes e verduras da estação, alguns deles selvagens. Tudo é servido em pequenas porções preparadas e apresentadas com muito esmero.

Os hóspedes podem visitar outros espaços do templo e participar de cerimônias como as orações matutinas que começam, perdão pelo trocadilho, religiosamente às 6 da manhã. Aqui existe a chance de participar do goma, um dos mais importantes rituais do budismo Shingon. Nesta cerimônia, o fogo — que representa o conhecimento infinito de Buda — é usado para queimar pequenas placas alongadas de madeira que representam os nossos desejos que, dentro do budismo, é reconhecido como a raiz do sofrimento humano. Enquanto a fogueira arde, os participantes fazem suas preces para Fudo Myo-o, um deus guerreiro que também é o patrono do fogo e uma das mais importantes divindades do budismo Shingon.
Misticismo e história
Visitar templos e mergulhar na atmosfera sagrada do local é o principal atrativo do Monte Koya. Dois espaços são bem importantes neste sentido: o Okunoin e o Kongobuji. Localizado numa área mais afastada do centro da cidadezinha, o primeiro é o templo dedicado a Kukai, que depois da morte recebeu o nome de Kobo Daishi. De acordo com as crenças budistas, aliás, é ali que o mestre segue em estado de meditação eterna, à espera de Miroku Nyorai, o buda do futuro.
Na crença de que estar perto do mestre pode levar à salvação, um grande número de personalidades importantes e senhores feudais construíram seus mausoléus no local que também é coberto de árvores. Atualmente, existem 200 mil tumbas na área ocupada pelo Okunoin, o que faz do templo, também, o maior cemitério do país. Da entrada principal até o Gobyo, o espaço de eterna meditação do Kobo Daishi, são mais de 2 quilômetros de caminhada, passando por pontes e outros espaços religiosos de extrema importância. Portanto, ao visitar, mantenha o respeito e siga as regras de cada local com relação a fotos, comidas e bebidas.

Já o Kongobuji é o principal monastério da escola Shingon. O hoje considerado salão principal foi construído em 1593 por Toyotomi Hideyoshi — um importante senhor feudal que teve papel essencial na unificação do Japão — em dedicatória à sua mãe que havia morrido. Com o tempo, o salão foi absorvido pelo templo vizinho e ganhou funções religiosas mais altas. Por isso, a visita a ele é um mergulho na história do budismo do século 16 em diante, em especial na arte sacra e na arquitetura.
O Ohiroma, por exemplo, é um imponente salão de reuniões com piso de tatami, cujas portas corrediças são folheadas a ouro e cobertas de pinturas de grous feitas no século 16. Este e outros salões são uma verdadeira aula de história da arte do Japão, com pinturas de épocas que se estendem até o século 20.
A mais recente das obras de arte do Kongobuji é o Banryutei, considerado o maior jardim de pedras do Japão. Criado em 1984, ele é formado por rochas trazidas da ilha de Shikoku, uma das quatro maiores do Japão e local de origem do Kobo Daishi. As rochas representam dragões emergindo de um mar de nuvens.
Uma rota de peregrinação na natureza
As belas montanhas de Wakayama não atraíram somente os seguidores do budismo Shingon. Há mais de mil anos, peregrinos têm construído rotas para visitar templos, santuários e outros espaços sagrados na Península de Kii, que abarca também o território da província vizinha de Mie. Esta rede de rotas recebe o nome de Kumano Kodo, algo como “Antigo Caminho de Kumano” e é tombada pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade. A única outra rota de peregrinação com o mesmo status no mundo é o Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha. Cinco são as rotas, partindo de diferentes pontos como o Monte Yoshino, em Nara; o Monte Koya; e o Santuário Ise, em Mie. As trilhas que atravessam a montanha são difíceis, perigosas e exigem preparação prévia. Por isso, a maioria dos turistas escolhe fazer apenas uma parte doelas, como experiência.

Três santuários são considerados os principais do Kumano Kodo e eles são chamados em japonês de Kumano Sanzan: o Hongu Taisha, o Hayatama Taisha e o Nachi Taisha. É possível visitar os três em um fim de semana, usando transporte público. No entanto, como os horários — tanto de trem quanto de ônibus — são bem esparsos, o ideal é planejar bem a viagem para ganhar tempo. Entre os santuários existem pequenas cidades que oferecem estalagens, quase sempre os tradicionais ryokan (lê-se com o ‘r’ brando como em ‘carinho’).
A árvore e a pedra
Localizado perto do litoral, o Hayatama Taisha é o ponto de partida para quem chega de trem. Ele fica a cerca de 1,5 quilômetro de distância da estação de Shingu, a maior da região. Fundado no século 12, o santuário foi reconstruído recentemente e é conhecido pela cor vermelha. Além dos salões de devoção, fica no espaço do santuário uma árvore de mais de 800 anos de idade. Para o xintoísmo, uma árvore pode ser a morada de um kami, uma divindade, quase sempre vinculada à natureza.
A origem deste Hayatama Taisha está conectada a uma pedra que fica numa área a menos de 1 quilômetro de distância e hoje é conhecida como Santuário Kamikura. De acordo com a lenda, três kami desceram à Terra nesta rocha que fica no topo de uma colina. Chamada em japonês de Gotobiki-iwa, a rocha sagrada é hoje a base de um pequeno salão de orações. A escadaria íngreme pode ser um desafio para pessoas com problema de mobilidade, mas não é impossível de se fazer, desde que com calma e cuidado.
O Kamikura também é o ponto de partida da procissão do Festival Oto. Na noite do dia 6 de fevereiro, cerca de 2 mil homens amarrados por cordas na cintura, descem a colina com tochas acesas, em oração pela colheita e pela família. Descrito como uma “cachoeira de fogo montanha abaixo”, o festival é tido como um dos mais belos e comoventes do Japão.

Entre a natureza e as águas termais
Construído originalmente às margens do meândrico Rio Kumano, o Hongu Taisha, como o seu próprio nome diz em japonês, é o principal dos santuários do Kumano Kodo. Ele é dedicado não somente à sua própria divindade mas, também, à deusa-mãe Amaterasu e às entidades dos outros dois santuários que formam a tríade Kumano Sanzan. Registros apontam para a sua existência no século 9, mas é provável que ele seja bem mais antigo que isso. Com as constantes enchentes causadas pelo rio, o Hongu Taisha se mudou para o alto de uma colina próxima ao seu local de origem, mas um portal de 33 metros de altura, que costuma ser iluminado nos festivais de virada do ano, foi construído para marcar o ponto de fundação do santuário.
Ponto central das rotas que compõem o Kumano Kodo, o Hongu Taisha é um santuário de arquitetura austera mas nem por isso pouco importante. Feito de materiais crus, ele é completamente integrado ao entorno, coberto por árvores. O teto do salão principal é feito de cedro, uma das cinco árvores sagradas do xintoísmo, abundante na região.
No entorno do Hongu Taisha ficam localizadas três estâncias de águas termais que têm sua origem como ponto de parada para os peregrinos do Kumano Kodo. Wataze Onsen é a menor delas e é onde fica o maior banho termal a céu aberto do Japão. Ele fica dentro do ryokan Watarase Onsen é acessível a não-hóspedes.

Já a maior das três estâncias é Kawayu Onsen. São diversos ryokan de estilos e tamanhos diferentes, localizados à margem do Rio Oto. No inverno, os locais escavam o leito do rio de onde a água termal brota e fazem uma piscina aberta ao público chamada de Sennin-buro. O uso é misto e gratuito.
Yunomine Onsen, por sua vez, é conhecida pelo Tsuboyu, incluído no conjunto tombado como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. Trata-se de um pequeno banho de águas termais localizado à beira de um córrego e coberto por uma cabana de madeira. O banho era usado pelos peregrinos do passado como forma de purificação e preparo para a chegada ao Santuário Hongu. É possível usar o banho, que é privativo, por 30 minutos e deve ser reservado assim que se chega em Yunomine. Outro banho público, este mais recente, também existe no local.
De Yunomine, parte a perna final, cerca de 3 quilômetros, da rota que leva até o Hongu Taisha. Com algumas partes íngremes, a caminhada pode ser exigente para quem não é habituado a esse tipo de atividade. Ainda assim, não é necessário nenhum equipamento especial para percorrê-la, somente um bom calçado e roupas adequadas. Num ritmo razoável, o caminho até o principal santuário pode levar até 1 hora e meia.
A cachoeira sagrada
Afastado cerca de 50 quilômetros do santuário principal fica o mais impressionante visualmente dos Três Santuários de Kumano, o Nachi Taisha. Não há dúvidas de que a fama se deve a uma cachoeira de 133 metros de altura, considerada a mais alta queda contínua do Japão, que junto com a pagoda do santuário forma a paisagem mais instagramada da província de Wakayama.
Como se deve imaginar, a cachoeira é considerada sagrada e não é somente pelo xintoísmo mas, também, pelo budismo que se espalhou na região no século 9, especialmente por conta da presença da escola Shingon. No Nachi Taisha é possível ver como as duas religiões se amalgamaram de forma profunda em várias partes do Japão. No espaço ocupado pelo santuário fica o Templo Seigantoji.

Localizado no alto de uma montanha, o Nachi Taisha é o de acesso mais difícil entre os Kumano Sanzan. É possível chegar de ônibus ou de carro até a base do santuário, mas muitos fiéis preferem subir pela belíssima Daimonzaka, uma escadaria de pedra com 267 degraus construída entre cedros, canforeiros e bambus. Num bom ritmo é possível subir a escadaria em 30 minutos.
No dia 14 de julho, o Nachi Tashi recebe o Festival Nachi-no-hi, o terceiro maior festival de fogo do Japão. A procissão sai do santuário e segue até a cachoeira e conta com doze andores do tipo de mikoshi — cada um com 6 metros de altura e decorado com ventoinhas e espelhos — e 12 tochas de mais de 50 quilos cada. O festival é uma prova de como a fé e a natureza andam integradas e formam um conjunto de beleza singular nesta que é uma das mais encantadoras províncias do Japão, Wakayama.





