Parte do meu trabalho como consultor é tornar a viagem dos meus clientes mais conveniente. Por isso, ouço muitas perguntas sobre acesso, facilidades, rapidez e praticidade. A conveniência, que antes era apenas uma qualidade, virou valor.
Se o restaurante não for de fácil acesso, já não vale a pena. O hotel tem que estar perto das principais estações do metrô, senão deixa de ser opção. A compra de bilhetes e ingressos tem que ser digital, rápida e simples.
Qualquer coisa que exija esforço parece perda de tempo e deve ser evitada. Com isso, as pessoas nem têm percebido que planejam suas viagens tendo como foco principal uma praticidade que se sobrepõe à experiência.
Acontece que o Japão desafia essa lógica. E os espaços de arte mais interessantes do país talvez sejam um dos melhores exemplos disso.
Quer visitar Naoshima, ilha de arte na província de Kagawa? Prepare-se para uma jornada que inclui trem-bala, trem parador, barca e ônibus. Se você estiver em Tóquio, quatro horas não serão suficientes.
Não tão distante, mas até mais desafiador, é o Espaço de Arte de Echigo-Tsumari, na província de Niigata. A viagem de trem-bala até Echigo-Yuzawa — a porta de entrada — é até rápida: pouco mais de uma hora. Daqui, as obras de arte estão espalhadas pela montanha e alguns lugares são tão isolados que, além do carro, a única forma de acesso é por meio de tours de grupo.
Em suma, parte das experiências artísticas mais marcantes do Japão está fora do que o turista de hoje chamaria de conveniente. Elas não ficam no centro das grandes cidades. Não cabem entre uma selfie num templo e o almoço no restaurante que está bombando no TikTok. Ou seja, não foram pensadas para uma visita rápida e descompromissada.
À primeira vista, isso parece uma falha logística. “Nossa, o Japão é tão estruturado! Como fizeram um espaço de arte num local de acesso tão difícil?”, já me disseram. Só que a inconveniência não é prova de incompetência. Em muitos casos, ela é parte da experiência.
Esses espaços foram pensados para o isolamento. Quando você vai até as montanhas de Kirishima para visitar um museu a céu aberto, não existe outra opção senão deixar o dia a dia para trás.
A única forma de fruir a arte nesses lugares de forma completa é embarcar na proposta. É pensar o caminho como uma câmara de descompressão. É deixar que a paisagem na janela vá mudando também o seu estado de atenção. É usar a espera entre o trem e o barco para ajustar a sintonia e se preparar para o que vem.
Em tempos em que quase tudo precisa ser imediato, rápido e sem atrito, talvez exista algo profundamente provocador em experiências que exigem este tipo de disposição.
Em viagem, nem toda dificuldade é um problema. Às vezes, ela é justamente o que faz a experiência começar antes da chegada.
A arte inconveniente do Japão


