É Primavera!

É Primavera!

Todo ano é a mesma coisa. Chega fevereiro e os japoneses só pensam em… sakura! Sim, com o inverno se encaminhando para o final, o povo começa a se planejar para, finalmente, poder botar a cara na rua sem medo de levar uma pancada de ar frio na lata. Ano após ano aqui no Japão, a gente acaba adquirindo os hábitos locais e, quando menos espera, já está se perguntando se saiu a previsão da floração das cerejeiras, uma coisa que ninguém nem imaginava que existia enquanto morava no Brasil.

Mas, como não esperar ansiosamente pelo curto espaço de tempo em que as cerejeiras florescem? Tudo muda! Do nada, parece que o mundo inteiro ficou cor de rosa. E as prateleiras dos mercados? Tem doce de sakura, mel de sakura, cerveja de sakura, sal de sakura e qualquer-outra-coisa-que-a-gente-nem-sabia-que-existia, só que de sakura. As ruas, então… Qualquer shotengai, por mais que mequetrefe que seja, fica todo florido. Flores de plástico, claro, daquelas que os Titãs diziam que não morrem. Mas não tem como negar que até as flores de mentira dão vida nova às ruas de comércio mais escondidas do país. Até a gente fica meio que, sei lá, molengão. Afinal, as cerejeiras floridas vão derretendo até o coração mais gelado e se mostrando um presente da natureza depois de um inverno que, para muitos, pode ser bem desanimador.

Bem, você deve imaginar que toda essa adoração pelas sakura não veio do nada. O costume de apreciar as cerejeiras em flor tem séculos de história dentre os japoneses. De costume restrito às aristocracias, o hanami (contemplação das flores) se tornou um festival extremamente popular e, ao longo dos séculos, inspirou artistas de todas as áreas: do ukiyo-e à música contemporânea, passando pela poesia haiku. Todas essas manifestações não são apenas porque a floração é linda. Ela tem um significado profundo para os japoneses, refinado ao longo dos séculos.

Nesta edição, o GUIA JP fala sobre a importância desse momento para os japoneses e te dá boas dicas para você aproveitar bem o curto momento da floração das cerejeiras.

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Não é de hoje que os japoneses esperam o inverno acabar para sentar-se embaixo das cerejeiras e celebrar o início da primavera. Num país com quatro estações bem definidas, festividades para marcar essas mudanças não é algo incomum. Vinda da China, a celebração do Setsubun no dia início de fevereiro marca o fim do inverno e o início “oficial” da primavera. Porém, na época, ainda costuma ser frio em boa parte do país.

As ameixeiras dão as primeiras flores a desabrochar na primavera japonesa. Chamadas de ume em japonês, essas plantas vieram da China para o Japão e suas flores eram adoradas pelos japoneses até o Período Nara (710-794). Até então, a influência da cultura chinesa no Japão era imensa e boa parte do que hoje consideramos como “cultura japonesa” tem sua base nos conhecimentos importados da China até essa época.

O período histórico seguinte marca a mudança da capital do país para Heian, que depois ganhou o nome de Kyoto. Essa foi uma época de grandes mudanças na sociedade japonesa, com movimentos que procuravam se afastar da influência chinesa e criar uma cultura que representasse o país na sua essência. Foi nesse momento que a sakura começou a se tornar admirada pelas aristocracias do país.

Essa obra, Yayoi Asukayama Hanami, foi criada por Shigemasa Kitao entre 1772 e 1776 e retrata um hanami no Parque Asukayama, cujas cerejeiras foram plantadas pelo xogum Tokugawa Yoshimune.

Somente alguns séculos depois que o hanami como a gente passou a existir. Em 1598, o Toyotomi Hideyoshi, um dos mais poderosos senhores feudais da época, organizou uma festa da pesada à sombra das cerejeiras do Templo Daigoji, em Kyoto. Óbvio que o convescote reunia só “diretoria” mas, ao que parece, a festa ecoou longe e não demorou muito tempo para que o povão também fizesse suas estripulias.

O século 17 chega ao Japão com o Período Edo (1603-1868). Foi o início de uma longa época marcada pela paz, construída através da unificação do país em torno do clã Tokugawa. Edo, que séculos depois se tornaria Tóquio, era o centro desse novo poder instituído. Com menos brigas e tensões, as pessoas encontram tempo mais tempo para o lazer, para arte. Essa amansada criou oportunidades para a realização de eventos como a apreciação das flores. Estando perto do poder, o Edo foi o cenário perfeito para isso. Acredita-se que os primeiros hanami populares tenham acontecido na cidade, em especial em Ueno, onde ficavam vários templos importantes.

Oitavo governante do novo xogunato, Tokugawa Yoshimune (1684-1751) pode ser creditado como o maior incentivador da forma como admiramos as flores de cerejeira nos dias de hoje. Foi ele que plantou uma enorme quantidade de cerejeiras em Edo, o que muitos autores creditam como o movimento definitivo para que a cultura do hanami espalhasse, primeiro pela por lá e, depois, pelo país. Mas, naquela época, o colorido rosa não era o predominante porque a espécie de sakura que mais admiramos hoje ainda nem existia.

De uma queda, foi ao chão

Uma das principais características da floração das cerejeiras é a sua efemeridade. Da abertura total do botão até a queda das pétalas não se passa mais que uma semana. E o mais interessante é que as sakura de uma região trabalham de forma sincronizada, ou seja, florescem juntas e caem juntas. Não é coincidência.

Existem dezenas espécies de cerejeiras mas acredita-se que entre 70 e 80 por cento das sakura do Japão são do tipo somei-yoshino, um híbrido criado artificialmente entre o final do Período Edo e o início do Período Meiji (1868-1912). As árvores dessa espécie são plantadas usando uma técnica chamada tsugiki (enxertia, em português). Através desta técnica, tecidos diferentes de plantas são conectados para que cresçam juntos. No caso das somei-yoshino, o uso da técnica garante que todos os pés tenham a mesma origem genética e, por isso, um ciclo de vida praticamente sincronizado. Por isso, é muito provável que o sucesso das somei-yoshino se deva ao fato de que os pés trabalhem ao mesmo tempo, causando o impacto na paisagem que vemos na época das floradas. Por cerca de uma semana, o espetáculo rosa domina a atenção de todo mundo. No final, as pétalas caindo como confetes encerram a temporada com chave de ouro. Curta, mas marcante.

Essa efemeridade, ou seja, a curta duração, é uma das ideias evocadas pelas sakura e que está por trás dessa adoração que os japoneses têm por esta pequena e delicada flor. Na cultura do país, a floração da cerejeira representa a própria vida humana, uma brevidade dentro da existência do planeta. Transitoriedade é uma outra ideia relacionada à planta. Em outras palavras, nada é eterno. Tudo passa, muitas vezes num curto período de tempo. São pensamentos herdados do budismo e, de acordo com eles, a temporada de floração das cerejeiras deve nos lembrar que é importante viver com esplendor e com foco no agora, sem medo do fim. Até porque, de acordo com os ensinamentos budistas, tudo é cíclico, como a floração das cerejeiras.