Shimane – Na terra onde os Deuses se encontram

Shimane – Na terra onde os Deuses se encontram

Às margens do Mar do Japão, Shimane passa longe dos badalados guias de turismo. Não que faltem atrativos nesta que é a segunda menor província do Japão em população. Pelo contrário, seja à beira mar, seja nas montanhas, Shimane é repleta de belas paisagens, boa gastronomia e muita, mas muita história. Seus quase 700 mil habitantes são orgulhosos de locais de grande importância cultural para os japoneses como o Grande Santuário Izumo (Izumo Taisha/出雲大社, em japonês), dedicado a Ōkuninushi, uma criatura lendária que passou poucas e boas antes de se tornar o soberano da então chamada província de Izumo. As lendas não param por aí. De acordo com os antigos escritos, Shimane é o local em que os deuses se encontram. Anualmente, as criaturas divinas chegam à província por uma praia, depois se reúnem num regabofe gigante no local onde fica o Santuário Saka. Não é à toa que as montanhas de Shimane são tidas como o berço do saquê, a bebida alcoólica japonesa por excelência. Por isso, o local é ideal para quem quer visitar fábricas de saquê e acompanhar a bebida com a gastronomia local, cheia de elementos de terra e mar, o que poderia ser muito bem uma interpretação bem japonesa do surf & turf cunhado pelos norte-americanos. Pequena e formosa, a província de Shimane é destaque nesta edição do GUIA JP. Viajei até lá e preparei um especial roteiro de dois dias para quem quer desvendar este destino que tem tudo para ser a mais bem escondida gema turística do Japão.

Dia 1 – Do Grande Santuário à Rota do Algodão
“Explore um Japão Desconhecido”: este é o slogan da campanha de divulgação internacional de Shimane. Foi a primeira frase que me chamou a atenção quando comecei a pesquisar lugares para a minha curta viagem no site em inglês aberto para divulgar a província. Conheço praticamente todas as 47 grandes unidades administrativas do Japão e sempre tive muita vontade de ir a Shimane que era uma das três províncias japonesas em que eu nunca tinha pisado. (As outras são Saga e Yamaguchi, sendo que, se formos considerar somente a ‘pisada’, esta última sai da lista.) Já tinha chegado bem perto de Shimane, aliás, numa viagem muito louca a Tottori, acho que em 2012. Sim, a província é, de certo modo, isolada. Localizada no lado japonês banhado pelo Mar do Japão, Shimane é até bem servida de transporte interprovincial. São três aeroportos: Izumo, Iwami e Oki. Isso, claro, se não contarmos o de Yonago, na vizinha Tottori, que fica a uma distância bem acessível de Matsue, a capital. Acontece que eu gosto mesmo é de viajar de trem e o único meio direto de chegar em Shimane de trilhos, vindo de Tóquio, é pegar um expresso noturno e sacolejar a noite toda no balanço do trem. Outra opção é vir de ônibus, se você tiver a madrugada inteira disponível. Sendo alguém que já passou dos 100 kg, virar a noite espremido num busão está totalmente descartado. Mais caro, sem dúvida, o avião acabou sendo a opção viável para eu aproveitar o máximo possível esse fim-de-semana que começa com um dia lindo de outono.


Um Santuário Grande

A imagem mais icônica de Shimane é, sem dúvida, o Grande Santuário Izumo (em japonês, Izumo Taisha/出雲大社) que fica bem no centro da província. Então, não haveria local mais indicado para começar a viagem. Izumoshi é o nome da estação central da cidade, de onde partem os trens da JR nas direções de Yamaguchi e Tottori e, mais escondidinha, fica a plataforma dos trens da empresa Ichibata que ligam o centro de Izumo até o Grande Santuário e a cidade de Matsue. A estação é pequena e o embarque é simples. O único cuidado é saber se você está pegando o trem direto para o Santuário ou se vai precisar fazer uma baldeação em Kawato, um pouco mais a frente. Antes de embarcar, a dica é comprar o “En-musubi Perfect Ticket”, um bilhete que pode ser usado por três dias nos trens da companhia Ichibata entre Izumo e Matsue e nos ônibus das duas cidades, incluindo os que servem aos aeroportos de Izumo e Yonago. Ou seja, se vier de avião, basta comprar o tíquete especial na chegada. Ele custa ¥1500 para estrangeiros, uma bagatela! Charmosa, a ruazinha que leva até o santuário é capaz de distrair os mais incautos. Cheia de restaurantes e lojinhas, dá para perder uma boa horinha ali não só conferindo as lembrancinhas mas, também, provando iguarias locais. Uma delas é o izumo-zenzai (出雲ぜんざい), bolinhos de arroz do tipo mochi servidos numa sopa doce de feijão azuki. Como muitas coisas na região, o zenzai tem a ver com a fé. Seu nome original, jinzai (神在), pode ser traduzido como “a existência do divino”. Em sua origem, a iguaria era servida como oferenda aos deuses. Honestamente, o doce é simples como quase tudo na gastronomia japonesa mas exige do brasileiro médio um certo desapego porque, vamos combinar, é arroz com feijão, só que de uma forma bem diferente da que estamos acostumados. A poucos passos do Santuário, a Nihon Zenzai Gakkai Ichi-go-ten é uma boa opção para quem quer provar o quitute.

 

Questão de nomenclatura
Grandes surpresas começam logo na chegada ao Izumo Taisha, ou melhor, Izumo Ooyashiro que é o nome oficial do santuário. “Taisha” e “ooyashiro” são duas leituras possíveis da mesma dupla de kanjis (大社) que forma a palavra que pode ser traduzida como ‘Grande Santuário’. Considerado um dos espaços religiosos xintoístas mais antigos do Japão, o Izumo Taisha tem a data exata da fundação desconhecida. Registros do ano de 950 indicam que o santuário era, na época, a mais alta construção do país, com 48 metros. Ainda nos jardins, pequenas pistas da mitologia do local começam a aparecer através de pequenas estátuas de lebres. Reza a lenda que o patrono do santuário, Ōkuninushi, se juntou aos demais deuses, seus irmãos, para tentar se casar com a Princesa Yakami. No caminho, os deuses encontraram uma lebre toda machucada, sem a pele do corpo, depois de ter pregado uma peça num grupo de animais meio crocodilos meio peixes. Maldosos, os deuses disseram à lebre que, ao se banhar nas águas do mar, ela teria sua pele restaurada. A lebre acreditou e, claro, ficou queimando de dores por causa da água salgada. Foi quando, então, Ōkuninushi, que vinha atrás com o peso das bagagens de todo o grupo, alcançou os irmãos e viu a cena. Compadecido, ele aconselhou o animal a lavar o corpo na água do rio e cobri-lo com o pólen das espigas de taboa. Já curada, a lebre profetizou que Ōkuninushi iria ser o escolhido pela Princesa. E, de fato, foi o que ocorreu, levando os irmãos a matá-lo duas vezes. Ressurreto, ele se tornou o governador de toda a província de Izumo. Mais “humilhados serão exaltados” impossível! Em todo o templo, as mais de 40 estátuas de Inaba no Shiro-usagi, a Lebre da Inaba, estão ali para lembrar a benevolência do deus Ōkuninushi, considerado o criador do Japão e, também, patrono do plantio, dos negócios, da medicina e criador dos laços entre as pessoas. Uma estátua do próprio também pode ser vista numa das pontas de um pequeno lago, ainda nos jardins. Seguindo em frente, o visitante se depara com uma impressionante construção, o Kaguraden. É o espaço onde são realizadas as recepções e o kagura, uma espécie de teatro musical dedicado aos deuses. No Kaguraden fica o maior shimenawa do Japão. Trata-se de uma espécie de corda sagrada, usada para espantar o mal e para purificar os ambientes. O shimenawa do Izumo Taisha tem 13,5 metros de comprimento e pesa cerca de cinco toneladas. O prédio principal, construído em 1744, é onde fica a morada dos deuses aos quais o santuário é dedicado. Infelizmente, ele só pode ser visto por detrás dos muros que o cerca. Uma pena. O chamado Honden é um dos exemplares mais famosos do tipo de construção chamado taisha-zukuri (大社造), cujos principais destaques são o telhado triangular com decorações em formato de espada chamadas em japonês de chigi. Ainda assim, ver parte da estrutura de 24 metros de altura é possível. Outro edifício de destaque fica atrás do Honden. É o Shokokan, que funciona como prédio administrativo e museu. Ali ficam expostas relíquias de grande valor histórico como jóias, artigos domésticos, pinturas, espadas e instrumentos musicais. Um desses objetos é considerado o pilão de madeira mais antigo do Japão. Vale a passada. Nos arredores do Izumo Taisha, ficam algumas importantes construções e locais que merecem a visita como o Museu de História Antiga de Izumo (Kodai Izumo Rekishi Hakubutsukan/古代出雲歴史博物館) e a Antiga Estação Taisha (Kyu Taisha Eki/旧大社駅). Como o tempo é curto, é bom avaliar o que interessa e escolher. Um pouco mais afastado fica o Izumo Hinomisaki, considerado um dos 100 mais belos faróis do mundo. Com 43,65 metros de altura, ele foi construído em 1903 e também é o mais alto do Japão. De ônibus, são apenas 30 minutos a partir do Santuário. São poucos horários ao longo do dia e, por isso, é preciso planejar bem a visita. Uma opção mais realista para quem tem pouco tempo é a Praia de Inasa (Inasa-no-hama/稲佐の浜) que fica a apenas 1 quilômetro de distância do Santuário. De acordo com as lendas, foi nessa praia que rolaram as negociações para que o deus Ōkuninushi entregasse o país ao domínio dos descendentes de Amaterasu. Na praia, o destaque é uma pequena ilha chamada pelos locais de Bentensan. Dedicada por muito tempo à deusa Benzaiten, a ilha hoje reverencia a deusa Toyotama-hime, avó e tia de Jimmu, o primeiro imperador do Japão, segundo a lenda.

Na Rota do Algodão
Para a segunda etapa do dia, embarquei no trem da Ichibata até a estação de Unshu-Hirata onde fica uma das áreas de casario antigo preservado em Shimane, um local nomeado como Momen Kaido (木綿街道) algo como ‘A Rota do Algodão’. No final do Período Edo, a localidade prosperou como entreposto comercial por causa dos rios e canais que eram usados para a escoar a produção de algodão da região. Depois de uma caminhada de cerca de 10 minutos partindo da estação, cheguei a uma rua estreita que parecia parada no tempo. Esta e mais duas ou três outras ruas compridas são o conjunto chamado de Momen Kaido. Minha primeira providência foi, claro, procurar um lugar para almoçar. Rapidamente me encantei por um noren — aquela cortina japonesa da entrada de estabelecimentos — onde estava escrito TRATTORIA 814. Honestamente, na hora, pensei no porquê de comer num restaurante italiano estando no interior de Shimane. Mas, uma espiada dentro do espaço foi suficiente para me convencer. A decoração rústica não tinha nada da pedância que poderia ser abrir um italiano num local tão tradicional. E não me arrependi. No almoço, um menu completo com entrada, salada, risoto ou pasta e sobremesa sai por módicos ¥1500. Além disso, os ingredientes frescos e a simpatia do chef Ryuji Maemichi fizeram a diferença mesmo quando o sabor não chegou exatamente no alvo. Vale o risco. O restaurante tem menos de um ano mas já dá para ver que quer construir uma história. Em seguida, parti para explorar as ruazinhas e, logo de cara, esbarrei com uma das lojas de shoyu do local. Poucos metros a frente fica um espaço onde estão expostas umas esculturas um pouco estranhas. É o chamado isshiki kazari, uma técnica na qual as estátuas são feitas com objetos inteiros que também não podem ser conectados entre si por nada além de arame. Ou seja, nenhuma das peças usadas pode ser quebrada, furada ou colada. A ideia é que tudo possa ser usado novamente, em sua função original. Tudo precisa estar inteiro e pronto para ser utilizado quando a escultura for desmantelada. É o conceito de reutilização de materiais ao extremo! Conta-se que a ideia surgiu no início do século 18 quando um morador fez uma estátua do deus Daikoku com utensílios de chá e a presenteou ao Santuário Tenmangu. No mês de julho, a localidade vibra com as criações dos moradores no festival anual do santuário. Outro destaque do local é a Residência Ishibashi, uma construção datada dos anos 1750, usada inicialmente como residência para o senhor que comandava a região. Incrivelmente bem preservada, a casa de dois andares era a única com um pavimento a mais na sua época e a razão era inusitada. Do alto da janela do segundo andar, o senhor e sua família se exibiam para os seus vassalos numa prova de que a cultura da ostentação não é tão nova assim. A casa depois transformada na primeira escola primária de Shimane e, na visita, é possível ver os diferentes usos que lhe foram dados ao longo do tempo. Do espaço na entrada destinado às espadas até a antiga sala de aula, a sala de estar e até o jardim: tudo muito bem preservado. A entrada na casa custa apenas ¥200 e por mais ¥200 é possível entrar acompanhado de um guia que não só ensina tudo sobre a residência como, também, faz com que as características do casario local não passem despercebidas. Foi por causa do nosso guia, por exemplo, que eu olhei mais a fundo o estilo das construções mais antigas do bairro, o tsuma-iri-zukuri (妻入り造り). Essas residências têm telhados em forma triangular, no estilo duas águas, com a porta de entrada na mesma direção da ponta da cumeeira. Por conta de uma série de incêndios ocorridos no Período Edo, as casas foram reconstruídas com uma espécie de laqueamento nas paredes, chamado de nurikabe-zukuri (塗り壁造り). Além disso, as paredes são revestidas com um outro sistema, o namako-kabe (なまこ壁), com suas paredes cobertas por camadas grossas de ladrilhos cinza e rejuntes bem destacados na cor branca com formas geométricas. Outro detalhe são as telhas de cor preta cuja função é fazer com que a neve derreta mais rapidamente.

Saquê e shoyu
A movimentação por conta do comércio de algodão atraiu outros negócios para as margens dos rios e canais da área hoje conhecida como Momen Kaido. Remanescentes de outras épocas, duas fábricas de shoyu e uma de saquê atraem os visitantes. A Sake Mochida tem 140 anos de história e produz um dos mais finos saquês dessa província que se gaba de ser o berço da bebida. A fábrica aceita visitas guiadas, desde que marcadas com antecedência. No meu caso, infelizmente, não tive a informação a tempo e acabei somente fazendo a prova dos saquês, o que já foi uma experiência fantástica. Bem pertinho da Sake Mochida fica a Mochida Shoyu e os nomes iguais não são mera coincidência. A fabricante do molho de soja tem origem na fábrica de saquê e lá se vão quase 100 anos de história. Diferente do shoyu vendido em mercado, a Mochida oferece tantas variedades do produto que é difícil sair de lá com um só. Além disso, por apenas ¥500 é possível visitar a produção que fica numa casa em frente à loja e aprender como o shoyu é produzido de forma artesanal. Não deixe, também, de provar o sorvete de shoyu. É, no mínimo, curioso.