Shimane – Elegância e simplicidade na Capital

Shimane – Elegância e simplicidade na Capital

 

Águas Termais
O embarque no pequenino trem da Ichibata não deixa de ser um passeio em si mesmo. A linha que faz a ligação entre Izumo e Matsue corre pela margem do Lago Shinji e revela belas paisagens. Algumas estações também são um charme à parte. Ichibataguchi, por exemplo, é cheia de referências ao filme RAILWAYS do diretor Yoshinari Nishikori que conta a história de um homem que, aos 49 anos, realiza o seu sonho de se tornar maquinista. A estação, onde o trem muda de direção, tem um papel essencial nas cenas de abertura e encerramento da película.

Ichibataguchi também é a parada mais próxima do Ichibata-dera, um templo budista local, conhecido por reverenciar o Me no o-Yakushi-sama, um buda da medicina que cuida especificamente dos olhos. Na estação, a referência a ele são pequenas estátuas de bronze chamadas de Medama Oyaji (目玉おやじ). A parada é, também, o ponto de descida para quem quer visitar o Santuário Saka (Saka Jinja/佐香神社), dedicado ao saquê e que, anualmente, em outubro, realiza um festival em que é oferecido com exclusividade o doburokuzake, uma espécie de nihonshu não filtrado e não pasteurizado.

Mas meu destino é o ponto final, a estação Matsue Shinjiko Onsen para um merecido descanso. A parte leste do Lago Shinji é conhecida pelas estâncias de águas termais. Logo na saída fica um agradável ashiyu, o banho para os pés, e é ali que eu decido dar uma parada para atualizar as redes sociais. Alguns ryokan, as tradicionais pousadas japonesas, ficam ao redor da estação. Mas se é para pegar um onsen na região a dica é mesmo ir até Tamatsukuri Onsen que fica a cerca de 20 minutos de ônibus do terminal ferroviário. Localizada às margens do Rio Tamayu, Tamatsukuri é conhecida como estância de águas termais há bem mais de um milênio. A primeira referência ao local aparece num registro da geografia e da cultura da província ancestral de Izumo datado do ano de 733. E não sei se é preciso dizer que, de acordo com as lendas, os deuses, quando se juntam em Shimane, vêm fazer um momento de relax por aqui.

A água sulfurosa mina no local em temperatura entre 50 e 70 graus e, de acordo com o site oficial da estância, tem efeitos positivos na pele e no tratamento de doenças como o reumatismo. Aliás, o mesmo site diz que um levantamento realizado em 2010 constatou que, dentre todas as fontes de águas termais japonesas analisadas, Tamatsukuri é a que têm a maior proporção de substâncias que hidratam a pele. Aliás, a estância também foi duplamente premiada em 2016 no Onsen Grand Prix, uma competição que destaca as melhores águas termais do Japão. Tamatsukuri garfou os prêmios de melhor estância e o Uru-hada, pelo efeito de hidratação causado pela água.

Quem não quiser se hospedar em um dos inúmeros hotéis ou ryokans da localidade, pode aproveitar os estabelecimentos que oferecem o higawari onsen, ou seja, apenas o uso dos banhos. Mas é preciso ficar de olho nos horários. A maioria só funciona nesse sistema entre meio-dia e três ou quatro da tarde. O Tamatsukuri Kokusai Hotel e o Hoseikan são os únicos que funcionam até o horário da noite, 20 e 21 horas, respectivamente.

 

Dia 2 – Elegância e Simplicidade na Capital
O dia amanheceu meio nublado em Matsue. Outono é assim mesmo e não há o que reclamar. A temperatura está agradabilíssima. Decido caminhar do meu hotel até o primeiro destino do dia, o Castelo de Matsue. São menos de 20 minutos de caminhada pelas ruas tranquilas da cidade, nesta manhã de domingo. Matsue é um dos poucos castelos originais remanescentes do período feudal japonês. Isso é um luxo. A grande maioria dos castelos que os turistas visitam hoje no Japão são reconstruções. Isso porque, logo após o fim do xogunato, uma legislação mandou dar fim aos castelos que sobreviveram. Em outros casos, o abandono e os desastres naturais deram conta de acabar com esses tesouros históricos. O Castelo Negro, como é conhecida essa jóia de Matsue, conseguiu sobreviver e está em ótima forma. E para a nossa alegria, oferece um desconto de 50% para visitantes internacionais. Logo na entrada, vi uma espécie de quiosque oferecendo serviço gratuito de guia para quem quisesse visitar o local. Achei a ideia interessante e fui me informar. Voluntários guiam os visitantes não somente em japonês mas, também, em inglês. Resolvi testar a guia internacional, uma mulher de meia idade, com um inglês bastante convincente e uma grande vontade de contar histórias. Foi com ela que eu aprendi que a construção do castelo foi iniciada em 1607 e durou cerca de 5 anos. Adminstrado, inicialmente, a um senhor feudal chamado Horio Yoshiharu, o castelo foi transferido, poucas décadas depois, para o clã Matsudaira, aliado dos Tokugawa, a linhagem do xogum. Construído numa época em que o país já estava calejado de tantas guerras, Matsue é uma fortaleza em estado bruto. Além dos muros ultra fortificados e dos vários fossos de proteção, o castelo tem seus andares inferiores pintados com uma grossa camada preta, para evitar incêndios. Além disso, a construção tem uma espécie de ‘andar secreto’. Por fora, cinco pavimentos podem ser identificados mas, por dentro, se pode ver que o prédio tem mesmo seis andares. Detalhes como as janelas para uso de armas e referências da construção talhadas nos pilares são pacientemente apresentados pela guia. Aliás, ela conta que, há alguns anos, a exposição do castelo era repleta de elementos referentes à história do país e da cidade de Matsue, a outros castelos etc. A exposição atual foca no que interessa: o Castelo de Matsue e, sem dúvida, é a melhor em apresentação dentre todos os castelos que eu visitei no Japão. Menos é mais. Depois da excelente visita guiada, decidi dar uma volta pelos jardins do castelo até sair, enfim, por uma pequena ponte que cruza o fosso. Bem cuidado, o parque tem como destaque as flores de primavera, incluindo as cerejeiras que florescem no local entre o final de março e o início de abril. Aliás, vale citar que o local foi incluído na lista dos 100 melhores pontos do Japão para observar as cerejeiras em flor. No outono, as árvores decíduas também começam a mudar de cor. O fenômeno tem seu auge no final de novembro. Pequenos barcos fazem um passeio pelo fosso e canais de Matsue. Turistas estrangeiros também ganham desconto no agradável passeio, com ou sem o “En-musubi Perfect Ticket”.

Elegância no chá
Matsue também é a terra de um dos maiores mestres do chá da história japonesa, Matsudaira Harusato. Sim, o nome já entrega e ele foi um senhor feudal que comandou a região, como aliado do clã Tokugawa. Harusato é de uma época em que os samurais voltaram a se interessar pela cerimônia do chá, depois de anos em que a prática foi considerada “um jogo sem propósito de homens desocupados que só querem lazer”. Como mestre, Harusato adotou o nome de Fumai e dele Matsue herdou uma forte cultura do chá. A cidade consome a bebida mais que cinco vezes a média do país como um todo. E como o chá não vem sozinho, Matsue também tem uma reconhecida produção de wagashi, os doces tradicionais japoneses. A cidade é uma das três maiores consumidoras da iguaria no país e ficou conhecida por produzir docinhos deliciosos e delicados. Casas de chá e outros estabelecimentos que oferecem o matchá, o chá verde feito a partir de um concentrado em pó, são muito comuns na cidade. Um dos espaços mais conhecidos é o Meimei-an, com sua história que tem início em 1779. O local, aliás, foi construído pelo próprio Matsudaira Fumai e se tornou a base da escola Fumai-ko de cerimônia do chá. Depois de subir as escadas de acesso ao Meimei-an, um pátio antecede o caminho para a casa de chá. Além do belo jardim de entrada, o local tem uma vista privilegiada para o Castelo de Matsue. O espaço de degustação fica após um corredor. A entrada custa ¥410 e o “En-musubi Perfect Ticket” garante um desconto. Os visitantes são convidados a conhecer primeiro o pequeno e charmoso jardim, onde fica uma antiga casa de chá. É uma oportunidade única de sentir toda a delicadeza que está por trás do ato de servir a bebida. Depois, não deixe de provar o chá e o wagashi do local, apreciando o jardim. Incrível. Além do Meimei-an, os arredores do castelo são cheios de outros lugares bacanas para visitar. O Bukeyashiki, por exemplo, é uma antiga residência samurai muito bem preservada e com indicações de como era a vida na região durante o Período Edo (1603-1868). Bem próximo fica, também, a antiga residência do escritor de origem grega Lafcadio Hearn, um dos primeiros ocidentais a escrever sobre o Japão de forma sistemática. A poucos metros, agora de volta à entrada principal do castelo, fica o Museu Histórico de Matsue, num amplo edifício construído à imagem das antigas casas de samurai. Além da exposição histórica, o museu tem um café que oferece uma experiência de preparação de wagashi. É possível ter desconto na entrada de todas essas instituições apresentando o “En-musubi Perfect Ticket”. Com tanta coisa para fazer nas redondezas, acabei almoçando por ali mesmo, no Ronjin, um restaurante especializado em shabu-shabu e sukiyaki, mas com um menu bem variado, incluindo pratos ocidentais. Localizado num prédio antigo, o restaurante inteiro tem um clima meio retrô, com elegância e mescla de elementos japoneses e ocidentais. O shabu-shabu é muito bem servido, ótimo custo-benefício com preços a partir de ¥2400 no almoço. Os molhos pecaram pelo excesso de acidez mas nada que não se possa corrigir com um pouquinho do açúcar do chá.

Arte ao pôr do sol
Uma visita a Matsue não fica completa sem um passeio à beira do Lago Shinji que fica a cerca de 2 quilômetros do Castelo de Matsue. O sol resolveu aparecer um pouco e a temperatura agradável ajuda na caminhada. Agradável, o Parque Shirakata atrai não somente turistas mas, também, locais em busca de um momento ao ar livre ou de uma boa vista para se exercitar. Passado o parque fica o belíssimo prédio do Museu de Arte de Shimane, uma estrutura de arte contemporânea com projeto arquitetônico do japonês Kiyonori Kikutake, que criou também o Museu Edo Tokyo. A estrutura revestida em vidro tem uma vista privilegiada do lago e abriga obras japonesas e ocidentais de grande relevância, como pinturas em biombo do Período Azuchi-Momoyama (1568-1600) e do subsequente Período Edo. Além disso, autores ocidentais como Courbet, Corot, Monet, Gauguin e Signac fazem parte da coleção do museu. A instituição está programando para fevereiro próximo uma exposição bem completa com obras de Katsushika Hakusai, um dos maiores nomes do ukiyo-e. Além das obras internas, o museu é responsável por uma série de esculturas que ficam à beira do lago e fazem um belo jogo de cena com o sol que já começa a se pôr. Tudo bem que as nuvens lá longe não ajudam e não vai ser um encerramento perfeito que a viagem merecia. Mas eu sempre acredito que não se deve ter tudo e que voltar a um lugar que te fascina é quase uma obrigação. E, de fato, faltou tanto a ser visto: o Museu Adachi e seu belo jardim, o litoral acidentado e cheio de falésias da província, a antiga mina de prata e o Kagura à beira-mar de Iwami, as ilhas de Oki… Muita coisa a descobrir, sem dúvidas. Mas, pelo menos, Shimane já não é mais um Japão desconhecido para mim.