Ano Novo, Ano bom

Ano Novo, Ano bom

Banquete, fogos de artifício, calor e folia à beira-mar. É assim que a maioria de nós, brasileiros, está acostumada a celebrar as festividades de fim-de-ano. Uma vez no Japão, tudo muda. O clima frio não convida a gente a sair de casa. Fica até mais fácil de entender porque a virada do ano parece passar em branco entre as famílias japonesas.

Mas essa é uma imagem superficial.No Japão, existem vários rituais de ano novo que são pensados e praticados com alegria e contrição. Um deles é o hatsumōde, a primeira visita do ano a um santuário xintoísta ou templo budista. Nos primeiros dias de janeiro, não é raro vermos os japoneses saírem em massa para demonstrar sua fé, agradecer pelo ano que passou e pedir bençãos renovadas para o ano que está chegando.

Mas não é só isso. Sentiu falta dos onipresentes fogos? Esteja num templo budista na hora da virada para o joya no kane, o badalar dos sinos que serve como um bota fora para o ano que se acabou. Afim de comer bem? Não deixe de experimentar o osechi ryori, um tradicional banquete de ano novo. Preocupado em manter a boa forma? Vá, então, de toshikoshi soba, uma receita simples e ótima para quem quer começar o ano bem consigo mesmo. Quer felicitar os amigos? Envie um nengajō, o equivalente japonês aos nossos cartões de Natal e Ano Novo. E, por fim, aproveite para contemplar a beleza do ano que está nascendo no hatsuhinode, o primeiro nascer do sol, que você pode apreciar até da janela da sua casa.

Para ajudar na sua preparação, o GUIA JP traz 10 dicas de lugares populares para a prática do hatsumōde. Além disso, ao longo da reportagem, pequenas mas oferecemos preciosas informações para entender melhor como os japoneses vivenciam a virada do ano. Conhecer esses rituais e costumes pode ser o incentivo que faltava para você aproveitar mais os dias de descanso que vêm com o Ano Novo. Não deixe o frio ou o cansaço tirar de você essa oportunidade única de se aprofundar na cultura japonesa, de retomar práticas familiares que foram deixadas para trás e de zerar para começar bem o ano que está chegando.

Nos Trilhos da Fé

Visitar um templo famoso nos primeiros dias do ano é uma tradição relativamente recente dentro da cultura japonesa. Ainda assim, as origens do que hoje chamamos de hatsumōde são bem antigas. No início de 1181, o xogum Minamoto no Yoritomo começou o ano fazendo uma visita ao santuário hoje conhecido como Tsuruoka Hachimangu, em Kamakura. A partir de então que o costume foi se espalhando pelo Japão. Até o final do Período Edo (1603-1868), a visita se chamava toshikomori e somente o patriarca visitava o santuário xintoísta do padroeiro da família na noite do ōmisoka (o último dia do ano) e na manhã do ganjitsu (o primeiro dia). Nessa época, era comum os fiéis dividirem a atenção entre o santuário dedicado ao padroeiro da família e o local sagrado mais próximo de casa de acordo com o ehō, a direção onde fica a divindade que irá reger os bons fluidos do ano que vai começar, de acordo com o horóscopo chinês.

Aos poucos, o modo de praticar o toshikomori foi sendo simplificado e, já no meado do Período Meiji (1868-1912), a visita passou a se limitar ao primeiro dia do ano. Foi nessa era, marcada pela construção das primeiras ferrovias do Japão, que o nome hatsumōde se popularizou. Isso porque a existência de um transporte de massa propiciou aos fiéis um meio de circulação mais conveniente para quem quisesse visitar templos e santuários distantes de casa. Um dos casos de maior destaque nessa época é o do Templo Kawasaki Daishi que fica a cerca de 40 minutos da atual estação de Tóquio. Ele foi o primeiro local sagrado a atrair multidões vindas de longe somente para o hatsumōde. Tudo graças à inauguração, em 1872, de parte da atual linha Tokaido da JR. Anos mais tarde, já em 1899, o início das operações da linha Keikyu consolidou o sucesso do templo budista, que perdura até os dias de hoje.

Com o tempo, outras empresas ferroviárias foram se estabelecendo e novas linhas de trem foram sendo criadas na região de Kanto, que corresponde a Tóquio e seus arredores. Para atrair passageiros, as operadoras foram aumentando a publicidade em torno do hatsumōde e fazendo com que o costume se tornasse cada vez mais popular na região.

Rapidamente, a estratégia foi copiada em Kansai (Osaka e arredores). Por lá, a visita em massa aos templos e santuários era mais comum no setsubun, ou seja, no final do inverno. Com a forte propaganda, o hatsumōde começou a ficar mais popular e a se firmar também no oeste e, atualmente, é praticado em todo país. Templos e santuários japoneses ficam lotados nos três primeiros dias do ano, um movimento de fé que move multidões no Japão.