Cultura e Tradições nos caminhos das águas de Nagano

Cultura e Tradições nos caminhos das águas de Nagano

Texto e imagens: Roberto Maxwell

Formado por centenas de ilhas, o Japão é um país cercado de água por todos os lados. Ainda assim, nem todos os lugares tem acesso ao mar. É o caso de Nagano que fica encapsulada entre os Alpes Japoneses. Nem por isso o líquido indispensável à vida está em falta na província. Tudo por causa das montanhas cujos picos congelados no inverno são apenas o começo de uma longa jornada. O calor descongela a neve e cada pingo, agora solto, encontra caminho ladeira abaixo. Uma parte vai pela superfície, formando córregos que se transformam em rios, carregando tudo o que encontram pela frente. Outra parte embica solo adentro, tornando o processo todo mais lento e ainda mais interessante. Tem água que entra em contato com o calor vindo do interior do planeta e ressurge quente e aditivada com minerais, uma característica natural abundante no território japonês. Também vai ter água jorrando, cristalina e pura, de inúmeras fontes, como em poucas outras partes do Japão. E essas águas que escorregam montanha abaixo moldam não somente a paisagem, dando formas que aprendemos a apreciar como belas. Elas também fazem de nós, os seres humanos, o que somos. Águas ensinaram a plantar e colher, nos possibilitam descanso e nos oferecem nutrientes, nos encantam os olhos e despertam nossa fé. Nesta edição, o GUIA JP aproveita o movimento das águas e viaja pela província de Nagano, chamada de lar por apenas 5 mil brasileiros mas reconhecida como um refúgio repleto de belezas naturais e boa comida pelos japoneses. Embarque com a gente!

Na terra das montanhas, não deixa de ser peculiar que o principal castelo tenha sido construído em áreas planas. Estamos falando do Castelo de Matsumoto, um dos símbolos de Nagano. Foi ao redor dele que cresceu uma cidade que hoje tem cerca de 220 mil habitantes e é a segunda maior da província. O terreno em que foi construído não é a única peculiaridade da edificação. Cercada por um lago esverdeado, a construção central do Castelo de Matsumoto é formada por cinco pavimentos, algo que só pode ser visto atualmente em Himeji. Além disso, a pintura externa, com partes em preto e branco alternadas, se combina com a paisagem dos Alpes ao fundo e faz do Castelo de Matsumoto um dos locais mais instabae, ou seja, instagramáveis, do Japão. Basta uma rápida busca na rede social para conferir. Originalmente, o castelo era formado apenas pela torre principal e por uma construção menor chamada de Inui Kotenshu, ambas conectadas por uma passagem que recebeu o nome de Watariyagura. Não existe consenso sobre o ano exato da inauguração destas primeiras porções mas é certo que tenha sido entre o final do século 16 e o início do século seguinte. Era o fim do Período Sengoku, em que os diversos senhores feudais lutavam pelo controle do Japão e Matsumoto estava preparada para a guerra. No primeiro pavimento da torre principal, por exemplo, é possível ver os ishi-otoshi, aberturas na parte em contato com os paredões, de onde se podiam jogar pedras e água fervente, evitando a entrada de invasores que tenham ultrapassado o lago. Já no andar superior da torre principal, ficam os musha e os tategoshi, janelas que eram abertas quando os guerreiros queriam atacar os inimigos com os tanegashima, armas de fogo adaptadas das espingardas trazidas pelos portugueses que visitaram o país no início do século 16. Com a paz conquistada após a unificação do país por Ieyasu Tokugawa, o castelo ganhou novas construções, desta vez com um pouco mais de poesia. Visto de fora, um pequeno corrimão vermelho se destaca à frente de portas de madeira mais claras que o preto visto no restante da construção. Trata-se do Tsukimi Yagura, uma varanda especialmente projetada para o romântico ato de observação da lua. Conta-se que, em 1634, o então xogum Iemitsu Tokugawa planejou uma viagem à então capital do país, Kyoto, com passagem pelo Zenkoji, um templo na atual cidade de Nagano. O Castelo de Matsumoto foi designado, então, para recebê-lo. Foi para impressionar o governante que o senhor do domínio de Matsumoto decidiu apressar a construção do Tsukimi Yagura. Infelizmente, por conta de obstruções na estrada, o xogum não pernoitou no local mas a Varanda da Lua ficou, para a apreciação dos visitantes deste que é uma das mais belas construções históricas do Japão.

Divinos sapos
Partindo a pé do castelo de volta para a estação de Matsumoto, outras atrações da cidade começam a saltar aos olhos… e aos ouvidos. Com menos de 300 metros de caminhada é possível chegar ao Santuário Yohashira, dedicado aos três deuses da criação para o xintoísmo e à deusa-mãe Amaterasu. Datado de 1879, o santuário foi construído sob ordens diretas do Imperador Meiji. Sendo dedicado a todas as divindades do altíssimo escalão, o Yohashira é o local onde o fiel pode fazer preces para todas as causas. Bem ao lado do Yohashira fica a entrada de uma pequena rua à beira do Rio Metoba que tem como marco uma peculiar estátua na qual dois sapos vestidos de samurai se enfrentam em cima de um terceiro. Produzida por estudantes de arte da Universidade de Tóquio, a bizarra estátua tem, por trás, uma história bem kawaii. Chamada de Nawate, a pequena rua surgiu no início do século 16 como um caminho de passagem entre o rio e a área do castelo. Pela localização, dá para imaginar que os principais habitantes da área eram sapos. Mais de dois séculos depois, a construção do Santuário Yohashira deu outra vida para a ruela que passou a ser usada como sando, o caminho pelo qual os fiéis passam para fazer suas preces. Como aconteceu com diversas dessas ruas de passagem no Japão, a Nawate ganhou diversas atrações, incluindo o comércio, até hoje presente na forma de restaurantes, antiquários e outros estabelecimentos. A urbanização no entorno do rio acabou trazendo sujeira e, em consequência, expulsando os sapos do local. Em 1959, um tufão fez com que o volume do Rio Metoba aumentasse e a enxurrada destruiu todo o comércio da rua. Na época da reconstrução, os moradores se lembram dos sapos e, num esforço para trazê-los de volta, não somente reconstruíram a rua como fizeram mutirões para limpar as águas do rio. Mas já era tarde. Os anfíbios ficaram somente nas várias estátuas e monumentos a eles dedicados na rua. Todos os anos, no final do mês de agosto, os moradores celebram o Kaeru Matsuri que pode ser traduzido como o Festival do Sapo. No entanto, o nome do evento traz em si, também, um outro significado. “Kaeru”, em japonês, também pode ser entendido como o “retorno”, quem sabe um dia, dos animais que sumiram da beira do rio mas permanecem na memória do povo local.

Cidade das águas
Atravessando o rio e vagando pelas vielas paralelas à Nawate, é possível ouvir um som intermitente vindo das sarjetas. Rapidamente, é possível constatar que se trata de água corrente que circula mesmo pelas ruas do centro de Matsumoto, brotando em poços e bicas em diversas partes. Tudo muito integrado à vida da cidade. Basta parar em frente ao belíssimo Poço Genchi para perceber isso. Em menos de dez minutos, quatro carros e uma bicicleta pararam em frente ao poço para abastecer galões com a água que brota naturalmente no local. Um dos mais bonitos e tradicionais poços do centro da cidade, o Genchi oferece cerca de 200 litros de água por minuto. Nomeado a partir do proprietário das terras onde ele ficava localizado, o poço aparece em registros históricos desde antes da construção do Castelo de Matsumoto. Logo depois, um guia ilustrado do século 19 destaca a água do Genchi como a melhor do domínio de Shinano, que corresponde à atual a província de Nagano. O poço também fez parte do roteiro da visita de Sua Majestade o Imperador Meiji a Matsumoto em 1880, pouco tempo depois da inauguração do Santuário Yohashira. Além do Genchi, dezenas de outros poços podem ser vistos no centro da cidade e sua água não serve somente aos cidadãos e visitantes mas, também, ao comércio. Ela é usada na produção do sobá — o tradicional macarrão de trigo sarraceno —, do saquê e até da primeira cerveja artesanal da região. Tudo isso pode ser provado na Nakamachi, uma rua de comércio que rivaliza com a Nawate pela atenção de locais e visitantes. Com uma história que se confunde com os 400 anos da própria cidade de Matsumoto, a Nakamachi fazia parte do caminho que ligava o Templo Zenkoji de Nagano às principais cidades do país: Kyoto e Osaka, a oeste; e Edo, a leste. Era local de passagem obrigatória para peregrinos, viajantes e funcionários do governo. Portanto, ficavam na Nakamachi as antigas destilarias de saquê e as lojas de atacado que atendiam ao comércio da região. Entre o final do Período Edo e o início da Era Meiji, as construções de madeira da rua foram perecendo por causa dos incêndios, o que causou enormes prejuízos. Foi assim que a paisagem passou a ser dominadas por edificações no estilo dozô, armazéns de paredes grossas feitas com argila. Como em outras partes do Japão, as construções receberam o reforço dos namako-kabe, paredes cobertas por camadas grossas de ladrilhos cinza e rejuntes bem destacados na cor branca, formando losangos de ângulos arredondados. A grossura dos rejuntes lembravam pepinos-do-mar, namako em japonês, o que acabou nomeando a técnica. Atualmente, as construções preservadas da área são ocupadas por restaurantes, cafés, izakayas, lojas de roupas, calçados e artesanato local, além de museus. Num dos dezenas de dozô que compõem a paisagem fica o Fujibikura, um restaurante que promete no almoço um sobá artesanal, 100% feito com grãos locais. O destaque do menu é o Nakamachi Kura Set, um combinado que traz, além do zarusoba (macarrão de trigo sarraceno frio), sashimi de carne de cavalo, oyaki (bolinho de trigo fermentado recheado com vegetais da estação), tempurá de cogumelos e nozawana-zukê, um tipo de conserva feita com as folhas e o caule da planta do nabo. Tradicionalmente, o nozawana-zukê é feito com uma técnica tradicional chamada ona-arai, na qual as folhas e caules são lavados em água termal antes de serem colocados em conserva. O ona-arai foi designado como Patrimônio Imaterial da Província de Nagano. É a influência da água local na culinária, gerando tradições que sobrevivem ao tempo.

Shamisen e música tradicional em Nakamachi
O Geiyukan é uma pequenina casa de shows. Hideyoshiro e Hideyoshiba são dois artistas que fazem apresentações de shamisen e hauta, um tradicional banjo de três cordas e uma espécie de canção popular do Período Edo, respectivamente. Entre uma música e outra, os dois contam causos sobre Matsumoto e a era dourada das gueixas na cidade. “Queremos, de algum modo, trazer de volta aquela época”, conta Hideyoshiro. As apresentações rolam aos domingos e feriados, às 13:30 e às 15 horas. Também é possível agendar outros dias e horários pelo telefone 0263-21-1107. Uma viagem ao passado O Kurashiku-kan é um prédio que fazia parte de uma antiga destilaria de saquê. Renovada, a construção agora abriga um espaço cultural e é aberta à visitação. É impossível não se impressionar com a estrutura interna do prédio, toda em madeira, e com a delicadeza dos cômodos de tatami e do pequeno jardim japonês. O local fica aberto de 9:30 às 17:00 e funciona o ano todo, com exceção do período entre 29 e 3 de janeiro.

A primeira cervejaria artesanal de Matsumoto Com a pura água dos Alpes do Norte, Matsumoto produz finos saquês. Então, por que não fazer o mesmo com cervejas? Assim, surgiu a Matsumoto Brewery que começou a produzir três tipos diferentes da loira nem sempre tão gelada. Foi somente em agosto deste ano que a empresa começou a comercializar, somente em seu Tap Room na Nakamachi, uma cerveja produzida localmente, uma stout, com um sabor leve e refrescante. O pequeno pub fica aberto das 13 às 19 horas e a terça-feira é a folga semanal.

Alimentado pelas águas de chuva e derretimento de neve dos picos de montanhas que chegam a atingir mais de 3000 metros de altitude, o Rio Azusa forma um vale magnífico, considerado um dos lugares mais mágicos do Japão: Kamikochi. A localidade é parte do Parque Nacional Chubu Sangaku, uma reserva engloba a parte norte dos Alpes Japoneses, uma cadeia de montanhas vulcânicas que perpassa as províncias de Toyama, Nagano e Gifu. Localizada cerca de 1500 metros acima do nível do mar, Kamikochi tem um inverno rigoroso. Por isso, a área só fica aberta aos turistas de meados de abril a meados de novembro. Veículos privados não podem circular na região. Quem vem motorizado precisa deixar o possante num estacionamento próximo à entrada do vale e seguir de ônibus o restante da viagem. Kamikochi é um paraíso para quem gosta de caminhadas na natureza, ainda mais com as agradáveis temperaturas que contrastam com o calor do verão em boa parte do arquipélago. Entre abril e maio, restos de neve ainda podem ser vistos pelas trilhas. A paisagem se completa com as folhas jovens das árvores. Do início de junho a meados de julho, chuvas tomam conta. É a época do tsuyu. Em seguida, chega finalmente o verão com suas temperaturas amenas durante o dia. Por fim, em meados de setembro, o outono chega fazendo as folhas ficarem vermelhas, um espetáculo como poucos no território japonês.

Heranças da atividade vulcânica O Lago Taisho é o primeiro local de visitação turística para quem entra no parque. Formado em 1915, após uma erupção que interrompeu o fluxo do rio, o lago tem uma paisagem bucólica que ganha contornos dramáticos com os caules de árvores remanescentes que ficam no meio do espelho d’água. Uma das formas mais bacanas de apreciar a beleza do lago é um passeio de canoa. Com duração de até 30 minutos e capacidade para três pessoas, a atividade custa ¥1000. Do Lago Taisho em diante, é possível tomar novamente o ônibus até o centro do vale, onde fica o terminal rodoviário e uma série de lojinhas, hotéis e outros estabelecimentos. No entanto, o encanto do lugar está justamente em fazer a pé a rota pela floresta. A trilha que liga o Lago Taisho até a Ponte Kappa tem 4,2 km de extensão e é muito confortável de caminhar. Na rota, além da beleza das árvores, é possível apreciar o canto dos pássaros. Cerca de 100 espécies diferentes são encontradas na região, a maioria de pequeno porte como o sabiá-de-cabeça-marrom. Algumas das mais belas paisagens de Kamikochi podem ser vistas nesta rota que, na maior parte do tempo, beira a corredeira de águas cor de esmeralda do Rio Azusa. O Lago Tashiro é uma delas. Formado pelas águas que descem do Monte Kasumizawa, o lago mais parece um rio. Raso por conta dos sedimentos e cheio de fontes de água que brotam do solo encharcado, o Tashiro reflete a vegetação e as montanhas como um espelho. No verão, flores como a azaleia e o sagisuge trazem colorido para o lago que, em muitos momentos, lembra uma pintura de Monet. Mais ou menos na metade deste primeiro trajeto, na parte onde as pontes Tashiro e Hotaka cruzam o rio que se divide temporariamente em dois braços, fica uma área de descanso, com alguns hotéis e um imenso espaço aberto nas margens do rio. Aqui, muita gente aproveita para almoçar e ficar mais próximo das águas. O Kamikochi Onsen Hotel, por exemplo, oferece na sua entrada um ashiyu, um banho de águas termais para os pés, excelente para quem quer relaxar da caminhada.

O-bentô ou à francesa?
O Kamikochi Lemeista Hotel é uma das dicas para quem quer comer fora da área central do vale, sempre mais movimentada. O local tem uma lojinha que oferece bentôs charmosos e apetitosos (a partir de ¥1100). Ótimo para quem quer comer na beira do rio, aproveitando a bela paisagem. Se a opção for por uma refeição mais completa, o La Riviere é o restaurante do hotel e fica logo na entrada. O cardápio é francês mas com excelentes adaptações, como o donburi de carne de pato e foie gras (¥2000). Por ¥3300, é possível pedir um almoço completo, com entrada, prato principal, acompanhamentos, salada, bebida e sobremesa. E se, depois do almoço, você ainda encara um banho quente no onsen do hotel, basta acrescentar mais ¥500 ao almoço completo.

Macacos rio acima
A poucos minutos de caminhada a partir do Terminal Rodoviário fica a Kappabashi, uma ponte suspensa de madeira que se tornou um símbolo de Kamikochi. Kappa é uma criatura do folclore japonês que vive em rios, lagos e lagoas. Também é o nome de um romance escrito em 1927 por Ryunosuke Akutagawa, que usou a ponte como inspiração para fazer uma sátira à corrupção na sociedade japonesa. A Kappabashi também é o lugar para fazer aquela foto especial do vale, com os montes Hotaka e Myojin ao fundo. Seguindo a trilha rio acima, pode-se chegar às conhecidas como Myojin, Tokusawa e Yokoo. Cada margem tem uma trilha com diferentes paisagens. Após cerca de dez minutos de caminhada pela rota da margem esquerda fica o Pântano de Dakesawa, um alagado com água corrente e cheio de caules de árvores. Sem dúvida, um dos locais mais belos de Kamikochi. Longe das áreas de aguaçal, mas ainda na beira dos rios, começam a aparecer bandos de macacos que caminham entre os humanos sem sobressaltos. São animais da espécie Macaca fuscata, muito comuns nos Alpes Japoneses. É o mesmo tipo de macaco que habita outro ponto turístico conhecido da província de Nagano, o Jigokudani, onde os bichinhos se tornaram mundialmente famosos por tomar banhos em piscinas de águas termais. Dezenas de macacos, a maioria fêmeas com os seus filhotes, circulam pela área, tornando o passeio ainda mais interessante. A dica é não interagir diretamente com os animais, em especial não tentar tocá-los. Também não olhe os macacos nos olhos, gesto que eles interpretam como ameaça. Cerca de uma hora de caminhada a partir da Ponte Kappa, ou 3,5 quilômetros, chega-se finalmente ao okumiya, uma espécie de filial, do Santuário Hotaka que fica em Azumino, já na parte baixa da província. Dedicado à Hotaka-no-mikoto, guardião dos Alpes Japoneses e divindade responsável pela segurança no trânsito, o local também é a porta de entrada para o belíssimo e misterioso Lago Myojin. Suas águas vêm do descongelamento dos picos do Monte Hotaka e abastecem o Rio Azusa que desce o vale e irriga os campos de arroz que fica nas áreas mais baixas, justamente na área onde se localiza o santuário-matriz. Por essa relação, o Myojin é considerado sagrado para o xintoísmo, uma religião em que a natureza é a principal divindade. Qualquer observador consegue entender facilmente como o movimento das águas morro abaixo molda paisagens e faz conexões entre as montanhas e o mar, passando por planaltos e planícies. Mas em Kamikochi é possível perceber algo mais abstrato. Cada fluxo de água é capaz de criar um forte elo unindo natureza e sociedade. Pensando assim, fica fácil entender porque a localidade é tão importante dentro da espiritualidade dos japoneses. Aliás, originalmente, o nome Kamikochi era escrito com os caracteres 神降地 que, em tradução livre, algo como “o local onde o deus desceu”. Por isso, é impossível sair deste vale sem ser tocado por algo que, independente da crença de cada um, tem um quê de divino. PPartindo da cidade de Nagano, uma viagem de cerca de uma hora no trem expresso da linha Nagaden leva até Yudanaka que, junto com a vizinha Shibu, forma um complexo de estâncias de águas termais. Situadas num pequeno vale às margens do Rio Yokoyu, as localidades têm mais de 13 séculos de história. Já na estação, um banho público mostra o que a região tem a oferecer. Mesmo os locais costumam frequentar o Kaede no Yu (¥300) e os seus banhos de águas termais cobertos e ao ar livre. Mas quem achar que ainda é cedo e quiser se guardar para uma experiência mais completa, pode apenas descansar os pés no ashinoyu que fica na entrada do banho. É de graça. Com 14 instalações entre hotéis e ryokan (hospedagens tradicionais), Yudanaka está longe de ser a cereja do bolo da região. É em Shibu que ficam as estalagens mais tradicionais e aquela sensação de voltar no tempo. São apenas alguns minutos de ônibus entre a estação ferroviária e o charmoso bairro mas há quem prefira fazer o caminho ladeira acima a pé, o que leva cerca de 30 minutos. A rota passa pela rua dos ryokan de Yudanaka e o caminho tem como principal destaque o templo Daihizen, que fica no alto duma colina. São 112 degraus até o local onde fica uma estátua dedicada à paz conhecida como Sekai Heiwa Kannon. Com 25 metros de altura e 22 toneladas de peso, a peça foi finalizada em 1964 e instalada no lugar deixado vazio por outra estátua semelhante que tinha sido desmantelada anos antes para uso na produção de artefatos de guerra. Poucos minutos caminho acima, chega-se em Shibu Onsen, uma das estâncias de águas termais mais charmosas da província. Nas ruas estreitas da localidade, de mais de 400 anos, estão 35 hotéis e ryokan, além de nove banhos com diferentes tipos de águas termais e que podem ser desfrutados pelos hóspedes dos estabelecimentos locais além, claro, dos moradores. Shibu conta, ainda, com 37 fontes que liberam águas a temperaturas que variam entre 60 e 90 graus. Visitantes que não se hospedam na localidade, podem usar dois dos nove banhos públicos: o de número nove e o Oyu, Grande Banho. O bilhete para estes dois estabelecimentos é vendido por ¥500 na Associação dos Ryokan de Shibu e no estacionamento público. Mas a melhor forma de aproveitar a localidade é passar a noite em um dos ryokan. Assim, é possível sair pelas ruelas para conhecer cada um dos banhos vestido com o yukata, um quimono leve, e calçando o geta (lê-se ‘guetá’), uma espécie de tamanco de madeira. Aliás, se a experiência das vestimentas não for atrativo suficiente para a peregrinação dos banhos, vai aí mais uma razão para você ficar em Shibu Onsen: acredita-se que se banhar em todos os nove ofurôs da estância pode trazer sorte na vida. No passeio entre um banho e outro, o visitante também pode explorar o pequeno bairro. Uma opção é conhecer as iguarias locais. Na entrada do ryokan Kokuya, fica uma fonte de águas termais que é usada para preparar os onsen-tamago, ovos cozidos lentamente na água aquecida pela natureza. Cada ovo custa apenas ¥50 e deve ser comido com cuidado já que a clara e a gema estão ainda um pouco moles e, claro, quentes. Também são imperdíveis os sorvetes da Wakabaya, uma loja que serve guloseimas e vende lembrancinhas. Produtos locais como a maçã, a uva e o pêssego são usados frescos como ingredientes para produzir um gelatto que não deixa nada a dever a seus correspondentes lá na Itália. Servido em porções de uma (¥300) ou duas bolas (¥400), é uma sobremesa que não vai decepcionar. No bairro antigo, é possível visitar, ainda, alguns templos e restaurantes, além de descansar no ashiyu, o banho para os pés que fica bem em cima do Oyu. A água costuma ser bem quente e pode ser temperada. Basta abrir a bica que fica bem no ofurô.

Água que passarinho não bebe
Atravessando o rio, numa caminhada de alguns minutos de distância, fica a Tamamura Honten, uma fábrica de bebidas alcoólicas com mais de 210 anos de história. As instalações atuais da empresa ficam num prédio de madeira em dois andares construído há mais de 150 anos no alto de uma colina às margens do Rio Yokoyu. Já no primeiro andar é possível sentir o clima de arte que permeia todo o espaço. Uma grande pintura em estilo tradicional japonês recebe o visitante juntamente com uma coleção de antigos objetos de arte em vidro e, claro, diversas garrafas de saquê e cerveja. Já no segundo andar, os pilares de madeira da construção fica visível e forma um belo combinado com as obras no estilo nihonga, parte de uma coleção construída pela família Sato, proprietária da empresa, ao longo dos anos. A água local é um fator preponderante da produção do Engi, o saquê da Tamamura Honten. Extraída de uma fonte localizada acima do famoso Jigokudani, o Parque dos Macacos, a água é fruto do degelo das montanhas do Shiga Kogen, uma das mais famosas estações de esqui do Japão. O arroz usado na fabricação do Engi também é o local Miyama Nishiki, uma variedade muito comum na província de Nagano. O resultado é um saquê leve mas nem tanto, com um gosto final que fica persistente na boca, sem ser incômodo. O Engi tem uma linha com mais de 20 produtos diferentes, capazes de agradar a todos os paladares.Um dos destaques é o namazake, saquê não-filtrado, que é leve e muito saboroso. Para ajudar na escolha, a Tamamura Honten oferece a possibilidade de degustação gratuita. Quem prefere cerveja também não vai ficar na mão. Desde 2005, a Tamamura Honten produz a Shiga Kogen Beer, que já ganhou destaque entre os cervejeiros japoneses. Na fábrica, é possível provar algumas das cervejas da linha e, claro, fazer as compras. Porém, a melhor opção é partir para o The Farmhouse, um restaurante com cara de pub que leva a assinatura da Tamamura Honten, e fica bem na entrada do caminho que leva ao Parque dos Macacos. Lá as cervejas podem ser degustadas com petiscos e outros pratos, num clima aconchegante e informal. Uma bela despedida para um lugar de águas tão acolhedoras.

Karuizawa é cool.
Situada a uma altitude de 1000 metros, a cidade de pouco menos de 20 mil habitantes localizada no sopé do Monte Asama, um vulcão ativo, está sempre repleta de gente de fora. Com temperaturas amenas na estação mais quente, a localidade foi eleita por ricos, famosos e políticos, em especial de Tóquio, como estância de veraneio. De acordo com dados de 2013 do governo nacional, cerca de 25 mil residências em Karuizawa podem ser classificadas como besso, casas de campo, uma em cada 17 de todas moradias com esse uso no país. Até o primeiro-ministro Shinzo Abe tem um besso por lá. Karuizawa também está na TV, não só no Japão mas internacionalmente. Fica lá a casa da mais recente temporada Opening New Doors de Terrace House, o homônimo reality show produzido pela TV Fuji em parceria com a Netflix, no qual seis jovens bonitinhos dividem uma casa “incrível”, com um carro “incrível” na garagem e vivem uma experiência “sem roteiro”, como diz incansavelmente a apresentadora You. Nada disso ocorreu do dia para a noite. Tudo começou ainda no século 19, quando Karuizawa caiu nas graças dos estrangeiros, europeus e norte-americanos, que chegavam aos montes ao Japão depois da abertura do país. Para estes novos imigrantes, as montanhas de Nagano e das vizinhanças guardavam semelhanças com suas terras de origem. Foi por isso que exploradores passaram a chamar as cadeias de montanhas da região de alpes, alcunha que permanece até hoje. Foram esses ocidentais que trouxeram para o Japão os esportes de neve e a cultura das casas de veraneio como conhecemos hoje. Karuizawa, por suas características climáticas, coube exatamente no estereótipo e acabou atraindo também toquiotas de classes mais altas até virar um destino turístico para descolados de todo o país e até estrangeiros

Compras com história
Kyu-karuizawa é considerado o centro da cidade. Engloba a área próxima à estação ferroviária de Karuizawa, onde é possível embarcar no trem-bala Shinkansen para Tóquio e Kanazawa. Bem ao lado da parada fica o moderníssimo Karuizawa Prince Shopping Plaza, com dezenas de lojas das mais diversas marcas, além de restaurantes e uma pequena praça de alimentação com food trucks. É o paraíso das compras de quem está com grana para gastar. A parte mais bacana da área fica um pouco mais afastada da estação. Trata-se do Karuizawa Ginza, um respeitável calçadão comercial no estilo shotengai, com tudo o que tem direito. Antigamente um entreposto comercial da Nakasendo, a estrada antiga que ligava Tóquio a Kyoto pelas montanhas, o calçadão também é um prato cheio para quem gosta de compras, com destaque para as lojas de zakka, as irresistíveis bugigangas que os japoneses adoram e sabem escolher muito bem. Outra pedida são os docinhos ocidentais, como pudins e tortas, muitas feitas com frutas da estação produzidas na província. Nesta parte da cidade, a influência ocidental se manifesta não somente na arquitetura das construções seculares como, também, na presença de duas igrejas cristãs com décadas de história. Na altura central do Karuizawa Ginza fica a Igreja Católica de São Paulo, construída em 1935 e afiliada à diocese de Yokohama (Kanagawa). Aberta para missas diariamente, a pequena capela de madeira também recebe visitantes fora dos horários de trabalho. Já no finalzinho do shotengai, bosque a dentro, está a mais antiga capela cristã de Karuizawa, a Igreja Anglicana Memorial Shaw de Karuizawa. Fundada em 1895 pelo missionário canadense Alexander Shaw, a igrejinha de madeira teve papel fundamental na história da cidade. O anglicano foi um dos primeiros ocidentais a visitar Karuizawa. Ele qualificou a localidade como “um hospital a céu aberto” por conta da temperatura amena que, segundo ele, seria capaz de curar suas dores nas juntas. Shaw morava em Tóquio e divulgou Karuizawa para diversos amigos e conhecidos ocidentais, antes de se mudar para a localidade. O missionário desenvolveu uma boa relação com os locais, ensinando-os a conservar gelo para uso doméstico e a plantar verduras e frutas ocidentais como o repolho e framboesa. Além, claro, de organizar cultos e eventos. A pequena capela anglicana, conhecida por acolher a todos, continua em funcionamento até hoje, com missas aos domingos e aberta a visitas durante o dia.

Charme e elegância no bosque
Naka-karuizawa é o outro distrito de interesse na cidade. Localizado no meio do bosque, é formado basicamente pela área ocupada pelo Hoshino Resorts que, além de hotel, administra um pequeno centro de compras, um restaurante e uma casa de banhos de águas termais. Além disso, outros hotéis na área têm suas próprias atrações. Elegante, o Harunire Terrace é, sem dúvida, o centro das atrações de Naka-karuizawa. Restaurantes e butiques ocupam um espaço todo construído em madeira, bem ao lado do rio, onde o som da água corrente contrasta com o frenesi de compras no local que costuma ficar cheio, em especial nos fins de semana e feriados. Do outro lado do complexo fica o Hoshino Onsen (¥1300), com o seu banho público Tonbo no Yu. A bela e discreta construção de arquitetura contemporânea reserva para o visitante banhos cobertos e um excelente rotenburo, o banho a céu aberto. Reconfortante. Fora da área do Hoshino Resorts, subindo uma pequena colina, fica a Igreja de Pedra, uma construção recente e cheia de significados. Projetada pelo americano Kendrick Kellogg, a igreja é uma homenagem ao escritor japonês Kanzo Uchimura, conhecido por ser o fundador do Movimento Mukyokai (‘sem igreja’, em tradução literal). De acordo com o pensamento de Uchimura, todos cristãos são unidos pela fé e não precisam estar filiados a nenhuma igreja em específico, devendo se encontrar em grupos independentes para estudar a Bíblia e confraternizar. Construída com o cuidado de não interferir na dinâmica natural ao seu redor, a igreja é formada por arcos de pedra e vidro que se intercalam formando uma alusão a interação entre homem e mulher no matrimônio. A igreja, aliás, é muito solicitada para cerimônias de casamento mas costuma ficar aberta à visitação quando não há eventos. Como em outras partes de Nagano, a água também se faz presente em Karuizawa. Ela está nos lagos da parte plana da cidade, nos córregos que deslizam pela montanha, as fontes de águas termais e, também, na Cachoeira de Shiraito, que ficam a cerca de 30 minutos de carro do centro da cidade. Pequenina, não tem mais de 3 metros de altura, pode não chegar a impressionar no primeiro olhar. Mas saber que suas águas não vêm de nenhum rio é, sim, surpreendente. As águas da Shiraito percolam pelo solo poroso vulcânico até o local onde formam a queda e, só então, viram um córrego que corre montanha abaixo levando não somente água e sedimentos mas, também, uma torrente de saberes, culturas, sabores, lendas. Bem representativo daquilo que podemos reconhecer genuinamente como sendo a cara da província de Nagano.