Monte Fuji e Hokusai

Monte Fuji e Hokusai

Monte Fuji e Hokusai

É impossível falar sobre o Monte Fuji e deixar de lado a arte. É provável que o primeiro grande propagador de sua beleza tenha sido Katsushika Hokusai (1760 – 1859) e sua obra mais famosa Kanagawa Okinamiura (神奈川沖浪裏) ou The Great Wave of Kanagawa em inglês. Esta obra faz parte da série “36 Visões do Monte Fuji”, que praticamente simboliza a arte japonesa no exterior. A importância de Hokusai é tão grande, tanto no Japão quanto no exterior, que ele foi uma das grandes inspirações do movimento Impressionista. Claude Monet comprou 23 obras de Hokusai enquanto Edgar Degas comprou seus sketches (esboços) de formas humanas. O Impressionismo foi um movimento artístico que buscava expressar com tintas as sensações que as cores, as luzes, os sons, os movimentos causavam. Utilizavam cores claras e brilhantes, além de pinceladas mais livres.

O impressionismo foi uma grande revolução artística por quebrar inúmeras regras existentes na pintura na época, abrindo espaço para outros movimentos que vieram posteriormente como Cubismo, Dadaísmo. Katsushika Hokusai nasceu em Edo (que se tornou Tokyo em 1868) e foi criado por um tio que trabalhava como polidor de espelhos, uma profissão altamente prestigiosa na época e que deu acesso a Hokusai as camadas mais altas na sociedade. No século 19, para aprender a ler e escrever também era necessário aprender a desenhar. Hokusai logo mostrou habilidade com os pincéis e aos 19 ingressou no estúdio de Ukiyo-e do artista Katsukawa Shunshou.

Durante sua carreira profissional, Hokusai desenhou inúmeras cartas de jogos e também dioramas em 3D, sendo um dos expoentes em desenho de “toy prints”, brinquedos em papel para a criança montar. Além desses brinquedos e dioramas, também ilustrou incontáveis livros de poesia e ficção. Nesta época, criou o Hokusai Manga, um livro de desenhos para que seus alunos copiassem. Porém, esta obra virou um best-seller e deu ao artista o primeiro gosto da fama. Apesar de morar basicamente na mesma região, Hokusai morou em 93 locais diferentes. Ele não era muito afeito a faxinas e por isso morava no local até ficar insuportável. Depois, apenas mudava-se para outra casa e lá montava um novo estúdio. Além disso, assinava constantemente com “nome de artista” diferente, sendo o último Gakyo Rojin Manji, que em tradução livre significa Velho louco por Pintura. Para quem imagina que Hokusai teve uma carreira de sucesso durante toda vida, achou errado. Depois da meia idade, após um derrame, a morte da sua segunda esposa e sérios problemas financeiros causado por um filho, ele começou seu trabalho de maior sucesso, “36 Visões do Monte Fuji”, aos 70 anos.

Hokusai não tinha medo de envelhecer, para ele, o seu trabalho feito antes de 70 não era algo para se importar; aos 80, veria-se um progresso de verdade; aos 90, descobriria o segredo da vida; aos 100, seria um grande artista e aos 110 anos, tudo o que ele criaria, um ponto, uma linha, ganharia vida de uma maneira espetacular. Não teve tempo, porém, de ver sua previsão tomar forma, pois morreu aos 88 anos em 10 de maio de 1849. Suas últimas palavras foram “Se o Paraíso me desse apenas mais 10 anos… ou mesmo apenas 5 anos a mais, eu teria me tornado um pintor de verdade”. “36 Visões do Monte Fuji” mostra cenas do cotidiano com o Monte Fuji ao fundo. São cenas de viajantes, cidades, trabalhadores, barqueiros e a poderosa onda em Kanagawa com barqueiros e o monte ao fundo. As fortes ondas de Kanagawa hoje atraem surfistas, transformando a região em uma das mais conhecidas de Honshu para a prática do esporte.

Na série de pinturas de Hokusai, o Monte Fuji aparece tanto como figura principal, como elemento de composição ao fundo. Em uma obra, aparece bem ao centro de um círculo, formado pelo objeto em que trabalha um artesão. Em outra, aparece como figura contemplada pelos personagens da pintura. Gaifuu Kaisei, “Fine Wind, Clear Morning” em inglês, é uma obra que retrata o Monte Fuji como figura principal, mas com uma diferença: o Monte tem um tom avermelhado e quase sem neve. Esta imagem foge bastante da imagem conhecida do Fuji San e para os desavisados, seria até uma loucura criativa do artista. Porém, este fenômeno acontece em situações únicas, com a umidade correta, deixando o solo molhado e também com a luz do sol atingindo o Monte com a intensidade certa. Isto é mostrado também pela luminosidade do Monte Fuji, em que o topo ainda está escuro, simbolizando o sol nascendo. Para quem já visitou a região de Fuji e Kanagawa, esta obra é reproduzida em garrafas de água Mineral, vendidas em paradas na estrada.

Na obra Kanagawa Okinamiura, o Monte Fuji tem as mesmas cores das grandes ondas, fazendo uma analogia entre a força das ondas e a imponência do Monte. São duas forças da Natureza e símbolos da região. Ainda sobre as ondas, uma curiosidade, as formas que as ondas formam, como se fossem pequenas garras são visíveis apenas em fotografia de altíssima velocidade. Como  é possível perceber no trabalho de Pierre Carreau (http://karapaia.com/archives/52184808.html). Isto confirma a excepcional percepção e capacidade de observação de Hokusai, mesmo sem tecnologias modernas. Se quiser conhecer um pouco mais sobre o momento que vivia Hokusai quando foi criada a obra Kanagawa Okinamiura, há o texto publicado no jornal “The Sidney Morning Herald” https://www.smh.com.au/entertainment/art-and-design/the-story-behind-japans-most-famous-picture-20170526-gwe9cl.html Hokusai e sua história podem inspirar desde artistas, como os pintores do Movimento Impressionista, a pessoas comuns com sua história de nunca se achar velho demais para  se aprimorar.

Monte FUJI
富士山

Por Emmanuel Cáceres e Kenji Munekata

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