O que ensinamos aos nossos filhos sobre frustrações?

O que ensinamos aos nossos filhos sobre frustrações?

Nosso ritmo de vida, a carga horária de trabalho e a forma como administramos nosso tempo e nossas muitas atividades nos levam a ter pouco tempo para nossos filhos e acabamos adquirindo um estilo de vida que nos permite “compensar” a nossa ausência dando a eles aquilo que muitos de nós não pudemos ter. Quantos passaram por dificuldades ou até privações na infância? Nem sempre pudemos ter aquilo que queríamos. Andamos muito a pé ou de ônibus, começamos a trabalhar muito cedo ou tivemos até que ajudar nossos pais a cuidar de nossos irmãos menores…
A questão é que nós chegamos onde chegamos, justamente porque passamos por situações assim. Privações, dificuldades e frustrações fazem parte da vida e são elas que ajudam a construir e melhorar o nosso caráter.
Para impedir que nossos filhos sejam frustrados ou contrariados, somado à tentativa de preencher a lacuna deixada por não termos mais tempo para ficar com eles, temos feito e dado muito mais do que eles realmente precisam, de brinquedos à celulares, viagens e eletrônicos de toda espécie.
O curioso é que eles não brincam com nem um terço dos brinquedos que tem, quando ainda brincam. Quantos dos seus filhos, que ainda são pequenos brincam de bola, carrinho, boneca ou casinha? O imaginário, a criatividade e a interação com outras crianças não fazem mais parte da vida deles.
E quais os resultados disso a médio e longo prazo? Adolescentes e adultos que não possuem a capacidade de fazer julgamentos ou resolver conflitos relativamente simples.
A área do cérebro responsável pela função de analisar uma situação e buscar diferentes saídas simplesmente não foi desenvolvida. Fatos rotineiros como uma nota baixa, um “fora” da namorada, uma dispensa de um estágio ou uma briga com um amigo podem deixá-los completamente desestruturados e suas reações são muito maiores do que o fato que as causou, podendo levar ao desenvolvimento de doenças como a depressão ou, no outro extremo, uma total falta de sentimento, apatia em relação a tudo o que lhes acontece. E aquele passeio na Disney ou o último Iphone pra eles não passa de um “ah, legal…”
Enquanto acreditamos estar blindando nossos filhos dos sofrimentos da vida, estamos na verdade tirando deles a capacidade de crescerem e se tornarem adultos emocionalmente estáveis e saudáveis. Será que não está na hora de mudarmos nossas atitudes em relação à eles?

 

Psicóloga
Ana Satie Takayama
CRP 12/04845
Psicóloga formada pela PUC-PR, Gestalt-terapeuta, Especialista em Educação Especial e Mestre em Ciências da Saúde Humana.
Realiza atendimento e orientação psicológica pelo Projeto Sakura desde 2017, pessoalmente em Toyota shi, Aichi ken e on line.